Tigres, camelos e outros bichos
O engajamento do cinema nas causas ambientalistas é tímido, diante da profusão e multiplicação de problemas. Há cada vez maior deterioração nas condições da vida planetária, e menos registros e menos alertas em imagens não documentais. Ou quando há, eles são muito inferiores não só em quantidade, mas em contundência. Recados importantes inoculados pela via ficcional são raros. Parece que os produtores de entretenimento não estão lá muito sintonizados nas sinalizações emergenciais, preferindo deixar toda a responsbilidade por conta de nichos televisivos especializados, Animal Planet, National Geographic, Discovery e imediações.
Quem detém o poder da produção e distribuição mundial de imagens em movimento parece se esquecer que o cinema, desde seu nascimento, é o mais poderoso veículo de transmissão de conhecimentos e culturas, oferecendo ao espectador infinitas possibilidades de encontro com paisagens, natureza (fauna e flora), lugares e costumes. E que, quando quer de fato, pode ser o mais ativo militante na luta pela defesa do meio ambiente em largo espectro.
É mais ou menos óbvio que, na lista de temas ambientais, há prioridades quando se trata de produção cinematográfica comercial. E é não menos evidente que a bicharada encabeça a lista de assuntos ecológicos por várias razões, desde o natural fascínio que o universo das espécies irracionais exerce sobre os chamados racionais, ou seres humanos, até pelo aspecto da descomplicação política dos problemas envolvidos.
Dois lançamentos recentes dão bem a medida do muito que é possível fazer no cinema em benefício de uma relação saudável e harmoniosa entre homens, feras e meio ambiente. Já nas locadoras, infelizmente sem escala prévia nas salas de Londrina, "A História de Dois Irmãos" é agradável e didática jornada ao reino do tigre, o felino mais majestoso e também o mais ameaçado. O diretor Jean-Jacques Annaud ("O Urso") resvala em certo antropomorfismo, mas dá a volta por cima e conta uma história familiar fascinante.
E da distante e improvável Mongólia está para estrear no país o elogiado docudrama "Camelos Também Choram", sobre um pequeno filhote albino rejeitado pela mãe logo que nasce e condenado à morte sem o leite materno. A crise leva a família de nômades, dona dos animais, a praticar antigo costume: chamar um músico da aldeia vizinha a fim de celebrar um ritual que, além de unir novamente os dois animais, fará com que a mãe chore.
Carlos Eduardo Lourenço Jorge, crítico de cinema





