TERRA ESTREMECIDA - Sem soluções efetivas, a luta pela terra continua
PUBLICAÇÃO
sábado, 06 de maio de 2006
Fábio Cavazotti<br> Reportagem Local 
Para muitos pequenos agricultores, endividados e desiludidos com a vida no campo, a decisão de deixar tudo para trás e arriscar a sorte num acampamento de sem-terra, é algo mais do que difícil: é única. O ato de abandonar a casa e se mudar para um local onde centenas - e até milhares - de famílias coabitam um amontoado de barracos de lona, justifica-se, na maioria das vezes, por uma combinação cruel de três motivos: insatisfação absoluta com a realidade; ausência de alternativas viáveis; e expectativa de uma vida melhor.
Nesta reportagem, a Folha mostra o resultado das visitas aos dois tipos de núcleos de sem-terra: acampamentos e assentamentos rurais. Os primeiros caracterizam-se pela ilegalidade, ou seja, o despejo pode ocorrer a qualquer momento; há apenas barracos amontoados; as pequenas lavouras são de risco; e não há energia elétrica, nem crédito para investimento. Já os assentamentos são locais com lotes legalizados e distribuídos; moradias individuais; lavouras permanentes e financiamento oficial.
A evolução de acampamento para assentamento, que pode levar mais de uma década, apresenta tantos percalços que boa parte das pessoas acaba voltando para a casa sem vencer a 'guerra'. Durante a viagem, a Folha constatou, por exemplo, a desintegração de um acampamento de 67 famílias em Tapira, na região noroeste, batizado ironicamente de Vitória. Apesar de permanecer na listagem oficial do Incra, a existência do antigo núcleo - ligado à Confederação dos Trabalhadores na Agricultura (Contag) - já quase não evoca lembranças entre a população do município. Também no noroeste, a Folha encontrou um acampamento do Movimento dos Agricultores Sem Terra (Mast), ainda ativo, mas com condições de vida tão precárias que parece fadado a morrer como crisálida, sem conhecer a fase de borboleta.


