A história da ocupação da terra no Paraná encontra, nas regiões sudoeste e oeste, um de seus capítulos mais conturbados. Desde a Guerra do Contestado, que opôs Paraná a Santa Catarina numa disputa pela demarcação de fronteira, no início do século XX, o conflito entre posseiros e empresas particulares tem sido constante na vida rural de dezenas de municípios da região.
Os primórdios do conflito podem ser encontrados na concessão de uma extensa faixa de terra, com 30 km de largura, feita pelo governo federal à empresa norte-americana São Paulo Railway. O objetivo - nunca concretizado - era construir uma estrada de ferro entre Rio Grande do Sul e São Paulo, para escoar a crescente produção de erva-mate e café. A ocupação da área pela empresa ocorreu em detrimento de famílias de pequenos agricultores, que já habitavam aquelas sesmarias desde o Brasil imperial. A expulsão das famílias deu início a um processo de convulsão fundiária, que ainda persiste.
O município de Pinhão, no sudoeste, é um dos epicentros desse conflito. Desde a chegada da madeireira Indústrias João José Zattar, na segunda metade da década de 40, começaram a surgir relatos de brigas e mortes pelo uso da terra entre as quase 2 mil famílias de posseiros que viviam em comunidades tradicionais, conhecidas como faxinais. ''Os posseiros de Pinhão são povo de origem cabocla, mistura de indígenas e portugueses, que nunca se preocupou com documentos ou divisas porque vivia de forma coletiva'', explica Hamilton José da Silva, conhecido como 'Tula', presidente do movimento de posseiros local.
No auge da produção, a madeireira chegou a ocupar 80 mil hectares na região centro-sul do estado. Para as famílias de faxinais, instalou-se uma luta desigual pela titularidade das terras. De acordo com o líder dos posseiros, os primeiros sinais de mudança nessa história ocorreram em 1987, quando passaram a se organizar e fundaram a Associação das Famílias Tradicionais Rurais (Afatrup) e o Movimento dos Posseiros de Pinhão. ''A partir daí, o problema chegou ao governo, à imprensa e à população em geral. Após muita pressão, o Incra, que antes ficava do lado da empresa, fez o primeiro assentamento''. Porém, até hoje, das 1.000 famílias de faxinais de Pinhão, Tula conta que apenas 88 obtiveram a regularização da terra.
Na década de 90, ainda segundo Tula, a madeireira mudou de tática e começou a solicitar a expulsão dos posseiros por via judicial. ''Eles executam os contratos, assinados após o prazo inicial de arrendamento, e os posseiros têm de sair. O tempo de vigência é inferior ao usucapião e a justiça não tem reconhecido nosso direito à terra como comunidade tradicional''. O movimento dos posseiros diz que 550 famílias já saíram das casas ou estão sob risco iminente de despejo. A empresa fala em aproximadamente 300 processos, entre pedidos de reintegração de posse e ações por direito de usucapião, por parte de algumas famílias de posseiros. Em apenas um caso a madeireira admite ter perdido a titularidade da terra por direito de uso dos faxinalenses.
Outro entrave jurídico, que pesa contra a permanência dos posseiros, é a legislação aprovada em 1999, no governo FHC, que proíbe a desapropriação de terras invadidas para fins de reforma agrária. A medida, que tinha o objetivo de coibir a invasão de terras, atingiu em cheio o grupo de posseiros.
Nos últimos anos, os despejos e a violência física foram reduzidos drasticamente, em razão do não cumprimento das ordens judiciais pelo governo estadual, mas o conflito fundiário ainda representa uma das principais causas de queixas que chegam à Delegacia da Polícia Civil de Pinhão.

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