A senda que se abriu nos primeiros 20 anos do movimento dos Trabalhadores Sem-Terra no Brasil, foi iluminada pela mística e filosofia da Teologia da Libertação, vivenciada principalmente nas Comunidades de Base (CEBs), entre as quais prevalecia a idéia de que não basta apenas se ajoelhar diante de Deus, mas é preciso colocar uma espada nas mãos dos trabalhadores sem-terra, para que lutem por um pedaço de chão. Essa estratégia orientou as ocupações de propriedades e foi considerada o ''motor'' da democratização da terra. Porém, na avaliação da Comissão Pastoral da Terra (CPT), a instituição Igreja Católica, a partir do pontificado de João Paulo II, abandonou a opção pelos pobres, em especial na América Latina, para navegar na direção de uma fé mais espiritual e menos preocupada com as questões sociais.
O entendimento atual da questão pela Igreja difere da preocupação com a luta social que norteia o pensamento de pessoas como Maria Isabel da Silva, encontrada pela reportagem em Pinhão e que recebeu em casa o presidente Lula. Apesar de representar um vértice diferente dos que lutam pela justiça no campo, como ex-posseira beneficiada pelo usucapião, Maria Isabel reproduz a profissão de fé presente no MST: ''Quando eu ouvia dizer que Jesus é o caminho, a verdade e a vida, e comparava essa idéia aos anos em que estava dentro da Igreja, esperando pela terra, me perguntava: Que caminho é esse, de miséria?''.
O fermento que fez a massa do MST crescer em todo o País começou a ser misturado no caldeirão da reforma agrária no Paraná - o berço do movimento -, com a organização dos sem-terra da barragem de Itaipu e o processo de empobrecimento das comunidades rurais do oeste, sudoeste e centro do estado.
''Nos anos 70 e início dos 80 já existiam alguns movimentos no sul do Brasil, por conta do processo de agravamento do êxodo rural e da efetivação do pacote capitalista, conhecido como Revolução Verde. O MST identificou-se com essa massa, que não conseguia encontrar uma saída. Em 1985, o movimento efetivou-se nacionalmente, sendo que o primeiro encontro nacional foi realizado em Cascavel'', afirma o coordenador estadual da Camissão Pastoral da Terra (CPT), Dionísio Vandresen, ressaltando que, neste retalho histórico, a Igreja Católica, pós-concílio Vaticano II, tinha uma posição radical de luta pelos pobres.
''Observando a história, eu diria que hoje o MST caminha pelas próprias pernas. O que houve, no decorrer do tempo e dos processos históricos, é que a Igreja, que orientou o nascimento do movimento, se distanciou. É uma pena. João Paulo II tomou outra direção, voltando-se para o espiritual. Não digo que ele fugiu da proposta, geradora de alguns movimentos sociais, mas o MST sofreu um prejuízo com isso. Não foi o MST que se distanciou das suas raízes, mas a Igreja.''

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