Estelio Feldman
No campo o ano foi marcado por invasões, despejos e muita violência, tanto por parte dos membros do MST quanto do Governo. E, também, de fazendeiros que acabaram, em alguns casos, usando a força para desocupar áreas. O auge foi o estabelecimento de um acampamento dos sem-terra, diante do Palácio Iguaçu, em Curitiba, por quase 6 meses.
Vídeo com cenas de violência por PMs na expulsão de sem-terras acende ainda mais o conflito agrário no Estado
O registro de invasões começou nos primeiros dias de janeiro, com a ocupação da Fazenda Nova Jerusalém, pela segunda vez, em Nova Cantú. Dias depois, também havia o anúncio de nova invasão em fazenda de Arapongas.
Logo no início de fevereiro, o MST ocupava fazenda em Marilena. No dia 11 daquele mês, a UDR, que reúne os proprietários de terras, lançava um alerta contra novas invasões. Uma semana depois, a mesma entidade fazia um apelo à união contra as invasões.
No começo de março, o governador Jaime Lerner prometeu desocupar 44 áreas invadidas. Em seguida, disse que a Polícia Federal precisaria ajudar o Estado na tarefa. Enquanto isto, em Manoel Ribas, o MST era acusado de roubar gado. Em seguida, se anunciava a terceira invasão da fazenda Jacutinga em Porecatu.
Dia 18 de março, uma séria denúncia: ruralistas do Estado eram acusados de usar minas em suas propriedades. Varredura da polícia não provou a denúncia. No final do mês, mais violência: o irmão de líder dos sem-terra, Eduardo Anghinoni, 30 anos, foi assassinado em sua casa em Querência do Norte. No começo de abril, o líder do MST, Seno Staats, era sequestrado e torturado em Renascença.
Diante da alegada falta de ação das autoridades para a retomada de terras invadidas, a Sociedade Rural do Paraná cobrou ação do Governo. A Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal, em visita ao Paraná, analisava os conflitos de terra no Estado, enquanto ruralistas pediam intervenção federal porque o Governo não estava cumprindo as ordens judiciais para reintegração de posse. No fim de março, pouco depois de uma manifestação do MST diante do Palácio Iguaçu, a Polícia Militar liberava uma fazenda em Ortigueira.
Maio começava com protestos, acusações da Pastoral da Terra contra a Polícia Militar e o temor, manifestado pelos sem-terra, de uma megaoperação para expulsão de invasores. Isto se confirmou no dia 7, com a PM desocupando seis fazendas e prendendo mais de 20 pessoas.
Os sem-teto também davam trabalho: no dia 17, a polícia tentou despejar 220 deles de um terreno em Cascavel, mas desistiu devido à resistência encontrada. E para compensar as perdas, no dia 21 o MST realizava megainvasão no oeste em fazenda de 600 alqueires, com mais de mil famílias.
O MST invadia, a Polícia Militar expulsava. Dois dias depois, eram desocupadas áreas invadidas no Noroeste do Estado, com a prisão de 13 sem-terra. No fim do mês, o MST anunciava caminhada a Curitiba. Em 8 de junho, é iniciado o acampamento do MST diante do Palácio Iguaçu.
No final de junho, uma bomba: era apresentado um vídeo mostrando violência policial em desocupação de área invadida. O secretário da Segurança contestou o teor da fita e o soldado que fez o vídeo acabou não aparecendo para depor no inquérito,
Para marcar o final do mês, a Polícia Militar realizou nova reocupação de terra em Querência do Norte, prendendo 27 sem-terra. As precárias condições do acampamento diante do Palácio produzem um trágico resultado: um bebê morreu, em um dos barracos. A secretária Fani Lerner chegou cogitar até de intervenção do Ministério Público no acampamento, para defender a integridade das crianças ali instaladas. Não teve sucesso.
Agosto começava e outras duas fazendas eram ocupadas no Norte do Estado. O ministro Raul Jugmann visitava Curitiba, anunciava verba para novos assentamentos e tentava negociar o fim do acampamento instalado no Centro
Cívico. Mas também não obteve resultados.
No dia 19, mais violência: tiroteio na fazenda Casa Amarela, em Ramilândia, no oeste do Estado, ocupada pelo MST, deixava 7 feridos. Em contraposição às invasões, um grupo armado tentou impedir ocupação de fazenda, em Cascavel.
O panorama não mudou em setembro: acusações da UDR, invasões no Noroeste, o MST fechando agências do Banco do Brasil, cães da PM atacando sem-terra em Cascavel e, no dia 28, a suspensão das ocupações de agências bancárias.
Outubro seguia quase no mesmo ritmo. Através de um acordo, sem-terra deixavam propriedade em Umurama. Paralelamente, ocupavam áreas em Itaúna e Terra Rica. Novo ingrediente é acrescentado com a prisão, dia 15, de um grupo acusado de matar cinco pessoas, em Cruz Machado, perto de União da Vitória. Os suspeitos são presos.
No começo de novembro é anunciada a criação, por fazendeiros do Oeste, de uma milícia anti-MST, fato que é criticado tanto pelo Governo quanto pelos sem-terra que, entretando, continuam a invadir fazendas.
Em Foz do Iguaçu, um fato diferente: agricultores, expulsos por gente do MST de uma fazenda, acampam diante da Cúria Metropolitana, considerando o bispo responsável pela sua situação. O prelado negou qualquer participação no ato.
Dia 21, grupo armado expulsou sem-terra de fazenda em Marilena. Dois dias depois, ação similar é realizada no Noroeste do Estado. A UDR aprova a ação, o MST, em represália, ocupa a sede do Incra. No dia 25, a PM desocupa área em Itaúna, prendendo nove pessoas.
E no dia 27, depois de 172 dias de ocupação, 750 policiais militares desalojam os sem-terra do Centro Cívico, em Curitiba. O MST afirmou que tinha feito acordo para deixar a área, pacificamente, mas o Governo do Estado negou. Em dezembro, o MST é acusado de invadir um assentamento, expulsar os moradores e sequestrar o líder do grupo, Celso Antônio Bakes.

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