Agência Estado
O tempo histórico mudou, e hoje as transformações se sucedem de forma surpreendente, dia após dia. ‘‘Em dez anos acontecem mais coisas do que aconteciam em séculos, há uma aceleração da História’’, diz o economista Celso Furtado.
Para ele, esta é a marca do Século 20, embora a origem da ‘‘aceleração temporal’’ esteja situada mais de 100 anos atrás. ‘‘Foi a revolução das comunicações, no século anterior, foi a comunicação sem fio que causou tudo isso’’, explica.
Mas as guerras têm muito a ver com essas profundas mudanças, porque o desenvolvimento tecnológico do Homem sempre esteve ligado ao aperfeiçoamento bélico, analisa Furtado. ‘‘O fulcro está na tecnologia, no formidável avanço tecnológico, sobretudo nas armas’’. Por esta razão, ele concorda com o historiador britânico Eric Hobsbawm, autor de ‘‘Era dos Extremos’’, que situa o ‘‘início’’ do Século 20 na deflagração da Primeira Guerra Mundial.
A tecnologia militar redefine a extensão dos conflitos, segundo Furtado. ‘‘Em relação à guerra napoleônica, com uma ou duas grandes batalhas, a Primeira Guerra Mundial foi uma surpresa enorme. Ninguém imaginava que uma guerra poderia ser daquela forma, e durar tanto’’. E a bomba atômica estabelece as bases da Guerra Fria, cujo fim, diz ele, é o término do próprio Século 20.

Distâncias
O avanço tecnológico provocou um ‘‘encolhimento do planeta’’, observa Furtado. ‘‘O aumento do intercâmbio de bens, serviços e idéias modificou profundamente a visão que têm os humanos do mundo, abrindo espaço para movimentos universais de idéias’’. Houve, até por isso, também uma mudança qualitativa na participação das mulheres no desenho do processo histórico. ‘‘Liberou-se o potencial criativo das mulheres, que tem sido em graus diversos coarctado pelos homens desde primórdios do patriarcalismo’’.
A expansão demográfica, aponta, tem conseqências ainda difíceis de se prever, mas a pressão sobre os recursos naturais cresceu. Os avanços da Ciência permitiram maior oferta de alimentos e, por outro lado, ampliaram o tempo de vida das pessoas. ‘‘Daí que hajam crescido paralelamente a super-oferta de alimentos e a fome endêmica que aflige um quinto da Humanidade’’, explica.
Mas nenhuma mutação foi tão significativa como a ocorrida por volta dos anos 50, lembra Furtado, quando cresceu brutalmente a capacidade do Homem de fazer grandes transformações na Natureza. Isso significou também um aumento de seu poder destrutivo. ‘‘Os avanços da Ciência experimental dotaram os homens de um poder de destruição e de autodestruição praticamente sem limites, e o destino da Humanidade passou a depender do uso que fazem do poder que empolga as sociedades que controlam as tecnologias de vanguarda’’.
Aos 79 anos, o ex-ministro de vários governos, um dos principais formuladores da filosofia desenvolvimentista, imortal da Academia Brasileira de Letras, Celso Furtado vê o mundo num momento de transição, em que ‘‘não há nada definido’’ sobre o que virá no futuro. Um momento angustiante. ‘‘Quando a gente começa a pensar sobre tudo isso, começa a ficar pessimista’’, confessa. Para evitar o pessimismo, a única saída é ‘‘não pensar’’, aconselha.

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