'Tecnologia não é um luxo', afirma especialista

Professor de Tecnologias da USP (Universidade de São Paulo), José Moran salienta que a educação é um processo humano de aprender com pessoas, mas hoje é intermediado por todas as possibilidades de pesquisa e de comunicação que podem acontecer na escola. Não ter acesso à tecnologia, diz ele, complica e atrasa o processo de ensino e faz com que o professor tenha que trabalhar os mínimos de informação quando ele deveria estar ajudando o aluno a avançar muito mais. "Não é um luxo a tecnologia. Hoje é uma necessidade e tem um impacto sério no nosso atraso", afirma.
Moran reconhece que o Brasil vive uma época complexa, marcada por crises e cortes e, nesse contexto, não se pode exigir que todas as instituições educacionais viabilizem o acesso às tecnologias. Ele também ressalta a dificuldade de implantação de políticas públicas e a escassez de recursos, de apoio e de políticas continuadas no âmbito da educação e do uso das tecnologias digitais no sistema de ensino brasileiro. "Não temos uma política continuada. Tudo é interrompido no Brasil de acordo com cada governo que entra. É um desastre", diz. "O mundo está caminhando para a conexão via celular. O caminho é realmente apoiar que haja uma infraestrutura boa de acesso, mas de incentivo também na comunicação via celular, que é uma área que a escola sempre se assustou um pouco. O celular só é visto como distração."
Moran, que trabalha formas de inovar na educação, aponta que o caminho é ajudar os gestores e professores a verem que "o mundo tem que estar dentro da escola e a escola dentro do mundo". "Tem de haver uma sinergia do que as pessoas fazem fora e o que fazem dentro. A escola não pode ser um museu separado da vida", defende.
Propiciar o acesso digital a todos os alunos, reconhece Moran, é quase uma utopia nos dias atuais, mas é preciso abandonar a crítica ao sistema e buscar alternativas viáveis de inovação no processo de ensino. "Claro que ter banda larga, wi-fi, é muito mais fácil, mas se não tem, pode encontrar formas de suprir as carências e não ficar parado nos obstáculos. É preciso tentar achar saídas porque isso ajuda a melhorar o desempenho e a própria motivação do professor. É preciso sair um pouco do círculo vicioso da queixa", defende. "É possível fazer muitas coisas com recursos simples. Está faltando um pouco de ousadia."
Formação de professores é falha
Um dos entraves apontados por especialistas para a dificuldade de utilização de recursos digitais na educação seriam as falhas na formação dos professores. Para o professor de Tecnologias da USP (Universidade de São Paulo) José Moran, o processo formativo é falho ao deixar de associar uma aprendizagem ativa com as metodologias que estimulem a participação e que coloque o professor como protagonista no processo de formação dos alunos. "Tem um lado da metodologia que é mal aprendido nos cursos de formação de professores e também têm as práticas de uso de tecnologias dentro e fora das salas de aula, como fazer essa ponte entre esse mundo híbrido em que vivemos, esse mundo misturado do on-line e do presencial", atesta Moran.
Faculdades e cursos de formação continuada, ressaltou o professor, ainda estão longe da dinâmica do Whatsapp e do YouTube. "Tudo isso tem de ser incorporado no cotidiano. O professor pode partir do YouTube para os alunos fazerem os seus próprios vídeos. Se você estimula, os alunos acham como fazer", sugere. "Tem de colocar limites, mas não vamos falar só de limites. Vamos falar de outras possibilidades. Temos que mostrar outros cenários a esses jovens para que não fiquem na internet só brincando. Você parte um pouco do mundo que o aluno conhece e o ajuda a ampliar as atividades. Isso é um papel muito mais nobre do professor. Ele não se permite ficar no básico, explicar o mínimo quando o mínimo está disponível aí para o aluno a qualquer hora."
Moran enfatiza que a criatividade não é a única saída e que as políticas do Estado, com reforço nos investimentos, não podem ser menosprezadas. "Tem um lado oficial também que tem de cobrar, tem que dar subsídios tanto na formação como na infraestrutura, que são básicos, mas hoje é possível, dentro da precariedade, o professor não ficar esperando que esteja tudo pronto para começar a mudar."





