Tecnologia na luta contra o câncer
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sábado, 24 de maio de 2003
Phoenix Finardi<br>Reportagem Local 
O câncer não é mais um bicho de sete cabeças. Ainda mete medo mas vem sendo enfrentado cada vez com mais sucesso. As descobertas científicas das últimas décadas ajudaram a transformar o câncer de uma sentença de morte em uma doença com índices de cura animadores. Há 30 anos os pacientes tinham medo até de pronunciar a palavra câncer. Em vez disso diziam que tinham aquela doença - lembra Mara Fernandes, assessora da diretoria do Instituto do Câncer de Londrina, ICL. Hoje os tratamentos se multiplicaram e os médicos podem dar mais esperança para os doentes. Apostando na tecnologia, o hospital do câncer acaba de comprar um equipamento de última geração, o acelerador linear atômico. O aparelho vai permitir dobrar o atendimento de radioterapia a partir do ano que vem, quando a instalação ficar pronta.
No Paraná só existem dois hospitais de câncer, por isso o número de atendimentos é grande. São mil pacientes por dia, vindos de 117 municípios da região. No ano passado foram 223 mil atendimentos. Para dar conta do serviço 405 funcionários circulam por uma área de 11 mil metros quadrados de construção. Quem olha do lado de fora não imagina que o ICL ocupa 19 terrenos, tem 90 leitos (8 de UTI), 4 salas de cirurgia e 2 laboratórios que fazem 56 mil exames por mês. Para combater o câncer com cirurgia, radioterapia, quimioterapia e imunoterapia, 105 médicos de 27 especialidades trabalham no ICL. O hospital também acaba de conquistar o direito de oferecer residência médica em oncologia cirúrgica.
Lidar com câncer não é fácil. Por trás dos remédios e tratamentos é preciso uma estrutura gigantesca. Por exemplo, no setor de radioiodoterapia, que trata pacientes com tumores de tireóide, foi preciso construir um apartamento completamente isolado com sistema de esgoto separado, além de um fosso com tampa de chumbo para isolar todo o material contaminado com iodo radioativo, que é ingerido pelos pacientes. Numa outra ala do hospital há quartos com paredes de 1,20 de espessura para conter a radiação da bomba de cobalto. Também é preciso lavanderias especiais, roupas apropriadas e pessoal treinado para atender esses pacientes. No setor de quimioterapia o controle tem que ser rigoroso. Cada dose é preparada individualmente e os remédios custam caríssimo. Preparamos coquetéis que custam 3 mil reais e tem gente que toma a cada 21 dias. Não podemos errar na dose e temos que manter registros do lote e validade de todos os medicamentos usados - especifica José Cesar Ramalho, farmacêutico do ICL.
O custo do tratamento às vezes assusta mais do que a própria doença: Uma pessoa que ganha um salário de até dois mil reais não tem condições de pagar um tratamento de câncer - garante Mara Fernandes. Muitos pacientes passam por cirurgia e além disso fazem radio e quimioterapia, ao mesmo tempo. Geralmente o tratamento é longo: Temos casos de pacientes que ficaram 3 anos vindo aqui - lembra Mara. Como 92% dos pacientes do hospital são do INSS, também é preciso lutar contra a falta de informação: Eles não entendem o que é radiação nem quimioterapia. É comum a gente ligar avisando a pessoa para vir buscar mais remédio e descobrir que ela simplesmente não tomou os que levou prá casa- lamenta Mara.
Quem tem câncer também tem medo. Ao contrário da doença, a ansiedade é contagiosa. Pacientes e familiares cobram do hospital uma agilidade muitas vezes impossível: A pessoa descobre que tem câncer e quer fazer a cirurgia imediatamente - explica Mara. Outros pacientes querem saber porque ficam só dois minutos na radioterapia, desconfiando que se o tempo de exposição fosse maior a cura seria mais rápida. Já flagramos familiares mexendo no soro para que pingasse mais rápido, sem saber que isso pode causar uma convulsão - diz ela.
A angústia da espera também pode ser vista do lado de fora do ICL. Oitenta por cento dos pacientes são de outras cidades. Trazidos por carros da prefeitura, chegam às 7 da manhã mesmo se têm hora marcada às 2 da tarde. Estamos tentando resolver esse problema informando as prefeituras dos horários de atendimento. Muitas vezes a pessoa chega aqui para uma consulta de ginecologia e descobre que veio no dia errado - reconhece Mara. O hospital só atende pacientes que já tenham diagnóstico de câncer. Segundo a assessora do ICL, depois de passar pela triagem e marcar consulta, a espera é de no máximo uma semana.


