''Quem vive sem tecnologia que atire a primeira pedra'', poderia ser parafraseada modernamente a lição bíblica. Exagero? É só dar uma olhadinha ao redor. Mas há quem não negue o fascínio pelo tecnológico. ''Não consigo ficar sem computador. Quando vou à praia, brinco com a minha esposa que depois de uns três dias preciso ir ao caixa eletrônico, só para mexer em um teclado'', confessa em tom divertido o professor Dorival Magro Júnior, de 38 anos. Ele, assim como milhares de brasileiros, vê com simpatia o avanço das máquinas.
''Normalmente, as máquinas são percebidas como monstros ou como deuses. Ou elas vão acabar com tudo ou salvarão o planeta'', ressalta o professor do programa de mestrado em Comunicação e Linguagem, da Universidade Tuiuti do Paraná, em Curitiba, Alberto Klein. Ele explica que essa divisão maniqueísta acontece quando o domínio da técnica foge ao controle humano. ''Aí acessamos os mitos, para analisar esse fenômeno de encantamento da tecnologia sobre os homens'', completa.
Em tempos de i-pod, mp3 player, dvd, televisão de plasma, celulares com rádio e televisão, não se encantar é difícil, garante o atendente de uma loja de celular em Londrina, João Victor Setra, de 24 anos. ''Fico maravilhado com a tecnologia. Quem não fica? Uma telinha dessa passando o que a gente vê na TV, não dá pra acreditar'', entusiasma-se. Há pouco tempo, ele deixou um loja de pneus para trabalhar com os aparelhos portáteis de telefone. ''Antes, gostava de tecnologia, mas não tanto'', resume.
Essa sedução pelo moderno e tecnológico não é nova, garante Klein. ''Sempre houve essa fascinação, até porque a máquina é uma invenção completamente humana, o que faz entrar em cena uma certa vaidade dos homens'', analisa. Mas ressalta que um pouco do exagero em consumir e tornar divina a tecnologia é próprio da condição humana.
O professor Dorival Júnior concordaria com Klein se o conhecesse. ''Sou dependente da tecnologia. Se tivesse mais dinheiro consumiria muito mais produtos. Há dez anos fiz a loucura de comprar um monitor de 17 polegadas, quando o mercado começava a oferecer os de 15. Foi caro, mas valeu a pena''.
Entretanto, Klein considera que, na relação homem-máquina, o quanto a última consome tempo do primeiro merece atenção. ''Cada inovação parece consumir mais do nosso tempo e o processo é cumulativo. Quem ficava três horas na frente da TV, não vai deixar para ficar na Internet. Ele vai somar esse tempo. A consequência direta disso são as modificações nas relações sociais humanas'', explica.
Para Dorival, as relações sociais, pelo menos em seu caso particular, potencializaram-se ®MDBO¯®MDNM¯ com a tecnologia. ''Amigos com os quais não conseguia me encontrar, hoje contato com frequência pelo MSN (comunicador on line). Fico bastante tempo no computador, até porque trabalho com ele. Mas, apesar disso, não gasto mais tempo na Internet'', pondera.
Já o estudante Christian Stein, de 17 anos, confessa: ''Antes de almoçar, preciso acessar a Internet. Chego da escola e preciso olhar minhas coisas''. O colega Luciano Kowalsky Casaroli, de 16 anos, conta que quando não tem o que fazer, mesmo podendo sair de casa com amigos, permanece ligado ao computador. ''Não sei por que fico lá sem fazer nada. Nesses casos, percebo que o computador rouba meu tempo e muda meu jeito de ser'', analisa. Ele ainda completa: ''Já fui mais frio nas relações. Hoje, percebo que não dá para ser assim''.

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