São Paulo - Em seu clássico 1984, George Orwell previu o surgimento do Grande Irmão, aparato tecnológico e totalitário que permitiria ao poder central controlar a vida de cada cidadão. Mas, como destacou a revista ''Wired'' no ano passado, o escritor inglês não conseguiu vislumbrar o aparecimento do Pequeno Irmão. Bricabraques tecnológicos como o celular com câmera, cada dia mais popular, aliados à rede mundial de computadores, colocam na mão de cada um a capacidade de espionar e denunciar malfeitorias.
Os maus-tratos de americanos a prisioneiros americanos em Abu Ghraib, fotografados e postados na Internet, foram só um primeiro exemplo, e talvez o mais visível. Mas isto foi só o começo. No ano passado, foram vendidos no mundo 180 milhões de telefones celulares com câmera embutida, um aumento de 130% com relação a 2003. A maioria dos analistas acredita que a tendência de crescimento será mantida e que até o fim do ano sejam vendidos 280 milhões de celulares com câmeras. Com isso, o número desses aparelhos em circulação no planeta chegará a 1 bilhão.
São máquinas que estão mudando a forma como as pessoas interagem entre si e com o mundo. Foi o que mostrou, por exemplo, o caso do tarado do metrô de Nova York. Em 19 de agosto, a desenvolvedora de web Thao Nguyen, 23 anos, voltava de metrô de uma entrevista de emprego quando um homem loiro, de meia-idade, de camiseta e calças pretas, sentou-se em frente a ela. O pervertido baixou o zíper e se exibiu para ela que, indignada, usou seu celular Samsung P777, com câmera de 1,3 megapixel, para registrar o flagrante e denunciá-lo à polícia. Thao foi além e estampou também a foto do sujeito no site ''Flickr'', que passou a ser apontado por vários blogs. O tarado acabou na capa do jornal ''New York Daily News'', uma semana depois. O homem foi identificado e teve de dar depoimento à polícia. Foi liberado depois de pagar fiança de US$ 5 mil, e pode ser condenado a três meses de prisão.
Também em Nova York um caso de exibicionismo frente a uma câmera de celular e propagação na Internet acabou dando uma dimensão inusitada ao que poderia ser mais uma história anônima de furto numa grande metrópole. John Clennan, 23, teve o aparelho roubado de seu carro, que estava com as portas destrancadas. O que o ladrão não sabia era que o dono era capaz de acessar, através da Internet, fotos e filmes feitos pelo celular, um Sanyo 5500. Alguns dias depois, ao acessar o site da operadora, Clennan descobriu que havia cerca de 40 fotos e cinco filmes que o ladrão havia feito. A maioria das fotos eram de um jovem, mostrando-se para a câmera, beijando uma garota ou posando com amigos e familiares. O jovem mandou algumas fotos para o site de seu correio eletrônico pessoal.
Clennan descobriu o e-mail do rapaz e começou a ameaçá-lo. Também colocou sua história e as fotos na Internet. O jovem tem 16 anos e diz ter encontrado o telefone jogado na rua e que não o devolveria. A polícia não considerou o caso prioridade, mesmo com milhares de internautas acompanhando o bate-boca eletrônico entre Clennan e o ladrão. Por precaução, Clennan desligou o aparelho.
A falta de resultado no caso do delinquente-exibicionista contrasta com o que aconteceu com a garota do cocô de cachorro, uma estudante sul-coreana que foi parar nas páginas do ''The Washington Post'' por ter se recusado a limpar a sujeira que seu cãozinho fez num vagão do metrô de Seul. Depois de ser criticada por muitos companheiros de viagem, a garota ficou brava, e os dejetos continuaram no chão. Alguns passageiros fotografaram a cena com seus celulares e colocaram as imagens na rede, pedindo ajuda aos internautas para identificar a menina. Em alguns dias, sua identidade e seu passado foram revelados. O incidente tomou o noticiário nacional na Coréia do Sul e a garota teve de deixar a universidade, depois de tanta repercussão.
Bem ou mal Como outros artefatos de tecnologia, o celular com câmera pode ser usado para o bem ou para o mal. As autoridades britânicas estão preocupadas com um fenômeno que recebeu o nome de ''happy slapping'', ou esbofeteamento feliz. Grupos de adolescentes resolveram bater nas pessoas nas ruas e filmar a ação no celular, para depois colocar os filmes na web. É como se cada um pudesse se considerar um Johnny Knoxville em seu ''Jackass'' particular.
O fenômeno foi tema de matéria no ''Guardian'', em abril. Num videoclipe, um jovem dá um soco na cara de uma mulher que estava num ponto de ônibus. Em outro, um grupo de garotos de uniforme arrasta outro num playground de escola, para depois derrubá-lo no chão com uma pancada na cabeça. Em seis meses, a polícia de Londres investigou 200 casos de ''happy slapping'', mostrando que o pequeno irmão pode se afastar da inspiração original e se encontrar com outro clássico inglês: ''Laranja Mecânica'', de Anthony Burguess.

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