''Aqui é o paraíso. Os únicos problemas são o vento forte e gelado que faz, no inverno, e os borrachudos'', dispara a agricultora Tereza Tessari, de 62 anos, referindo-se ao bairro Lamenha Pequena, onde nasceu e vive até hoje, numa propriedade de mais de cinco alqueires.
Descendente de poloneses, dona Tereza é casada, tem cinco filhos e cinco netos. Quase todos moram com ela, na chácara, e trabalham na cultura de hortaliças, produtos vendidos nas feiras livres de Curitiba e que garantem o sustento da família.
''Sou nascida e criada na roça, os meus filhos também. Aqui é um lugar ainda sossegado, graças a Deus. Não me falta nada. O que mudou nossas vidas foi o lixão'', conta ela, que fica dentro de casa com portas e janelas fechadas para evitar que os borrachudos entrem. Um dos filhos dela, Mauro Tessari, de 27 anos, assim que sai de casa fecha rapidamente a porta, como num ato mecânico.
Segundo a Associação dos Moradores de Lamenha Pequena, mesmo após o lixão ter sido desativado, há 20 anos, o chorume que se acumulou escorre para o rio Passaúna e provoca a proliferação dos borrachudos, cuja população é controlada por programas de saúde sanitária.
''Digo que reduziu pela metade os borrachudos. Mas não posso ficar sem calça e blusa de manga comprida, porque onde não tem roupa ele pica. No verão, os borrachudos judiam ainda mais da gente, até porque no calorão não posso abrir as janelas e a porta de casa'', relata Tereza, mostrando as picadas nas pernas e braços.
''Quando a gente pede, a prefeitura coloca veneno no rio para matar as larvas. Mas passa um tempão para vir de novo. É horrível, nem os bêbes aguentam ficar no berço'', reclama a senhora, que aproveita para criticar a cobrança de dois impostos, o IPTU e do Incra.
''Eles dizem que Curitiba não tem área rural, para poderem cobrar o IPTU. Mas olhe, como que não tem área rural se vivemos da lavoura'', indaga Tereza, que nasceu no lado de Lamenha Pequena que fica em Almirante Tamandaré, na Região Metropolitana.
Pico - O bairro é o ponto mais alto de Curitiba, fica a 1.021 metros de altitude, e tem território misto, metade dele fica em Curitiba e metade no município vizinho. A escola Municipal Helena Witoslowski e a Estadual Lamenha Pequena, que funcionam no mesmo prédio, é localizada em Almirante Tamandaré, por exemplo.
''Não há abandono dos dois municípios, que se preocupam com Lamenha Pequena e nos ajudam a controlar os borrachudos. Mas sabemos que o impacto gerado pela poluição ambiental do lixão vai durar muitos anos'', disse a presidente da associação e diretora da escola municipal, Divanir Lúcia Sandrimeguer, de 64 anos.
''A prefeitura de Curitiba prometeu que recuperaria o antigo lixão, sanaria os prejuízos causados por ele e transformaria o local no bosque da Lamenha Pequena. Mas até agora nada aconteceu'', diz Divanir.
No entanto, a diretora aponta as benfeitorias feitas no bairro, como a construção do contorno norte, permitindo que veículos pesados desviassem do tráfego do bairro, que é bem servido de linhas de ônibus e conta com uma escola que atende a demanda local.
''Lamenha Pequena está sendo urbanizada aos poucos, mas mantém a área rural. Por isso atrai a construção de novos condomínios. Mas ainda precisamos de oferta de serviços, não temos padaria, farmácia, creche, posto de saúde, ou mesmo espaços de lazer como parques e pracinhas'', pontua Divanir. (Na página 3, conheça a Caximba, bairro situado no ponto mais baixo de Curitiba)

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