TÃO LONGE, TÃO PERTO - '...e o mais baixo de Curitiba'
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quarta-feira, 01 de agosto de 2007
Flora Guedes<br>Equipe da Folha 
No extremo oposto de Lamenha Pequena, a Caximba está localizada no ponto mais baixo de Curitiba, a 864,90 metros acima do nível do mar, e guarda uma semelhança com o bairro de maior altitude. Ambos sofrem prejuízos por receber e ter recebido em seus territórios o despejo diário de lixo.
A diferença é que na Caximba não existe um lixão, mas um aterro sanitário para 15 municípios da Região Metropolitana de Curitiba, cujo impacto ambiental é controlado e monitorado. Mesmo assim, desde que o aterro foi implantado, em 1989, o cotidiano do bairro nunca mais foi o mesmo.
O forte cheiro que paira no ar, de chorume, denuncia a vizinhança com o resíduos descartados pela população, cerca de 2,4 toneladas, por dia. O tráfego constante de caminhões de lixo e um bando de urubus sempre sobrevoando a área reforçam a existência do aterro.
''Principalmente no domingo, que acho que eles não cobrem com terra, e também quando passa alguns dias chovendo, o vento traz um cheiro mais forte'', relata a cozinheira aposentada Lurdes Anssai, de 80 anos, descendente de italianos, portugueses e franceses.
Dona Lurdes mora na Rua Delegado Bruno de Almeida, principal via do bairro e que corta ainda Campo Santana, Rio Bonito e Pompéia (Tatuquara). ''Gosto daqui, onde nasci. Logo no começo do aterro estranhei o mau cheiro, mas depois acostumei. Sei que no próximo ano ele será fechado. Será bem melhor'', disse dona Lurdes. A família dela também foi uma das indenizadas por cederem parte das terras na área onde fica o aterro.
O comerciante Raul Ribeiro Batista, de 78 anos, lembra que foram realizadas algumas reuniões da Prefeitura de Curitiba com a população para que o aterro fosse implantado.
''Parte das pessoas gostaram da idéia, porque iriam vender suas terras para o aterro, outras ficaram revoltadas porque não iriam ganhar nada com isso. Mas quando vimos, já estava lá funcionando'', lembra o senhor, que nasceu na Caximba, e é dono de uma mercearia que funciona há 53 anos. Seo Raul também fundou uma das cerca de 40 olarias que funcionam no bairro.
''Agora deixei a olaria para os filhos cuidarem e na mercearia dou uma ajuda, mas é minha filha quem trabalha lá agora'', conta Raul, que ainda pequeno começou a ajudar o pai na roça.
''A gente plantava até na área que hoje é o aterro. Mas também fazia barricas para armazenar erva-mate que eu vendia para o historiador David Carneiro, lá na altura onde é o Novo Mundo. Eu ainda levava lenha para vender no Centro, numa carroça com dois cavalinhos. Naquele tempo só havia residência em Curitiba. Imagine que da casa do meu avô a gente via a torre da Igreja do Portão'', relata Raul Ribeiro.
''Quando eu tinha 15 anos gostava muito dos bailes que aconteciam no bairro, todos os sábados. Meus irmãos tocavam gaita e viola. Era animado e a gente dançava com as moças. Naquele tempo era seguro aqui'', recorda Raul, reclamando que desde 1995, sua mercearia já foi assaltada dez vezes. ''A polícia não resolve nada, a gente só pode rezar para que as coisas melhorem mesmo'', critica o senhor.


