Também decido ser sincero e revelo meu interesse ali
Continuando o relato do curso: Comigo estão Gilson e dois rapazes recém-chegados aos 20 anos. Um deles, Rodrigo, destaca-se pela extrema sinceridade. Conta, entre outras coisas, que largou o curso de Direito e tudo o mais o que vinha fazendo por causa de uma "quebradeira geral" (leia-se picos de estresse, ansiedade, ataques de pânico e afins). Por indicação da terapeuta, ingressou nos "guerreiros".
Também decido ser sincero e revelo o meu interesse ali. Felizmente, os colegas não se mostram incomodados com a presença de um repórter na sessão. No entanto, quando Alexandre pede que cada grupo aponte um representante para sintetizar o que foi conversado, não sou poupado. "Vai você, que é jornalista", dizem.
Detalhe: só tem a palavra quem estiver segurando o "bastão falador", um galho de árvore cuja função é permitir que o indivíduo se expresse sem ser interrompido. Segundo o facilitador, trata-se de um instrumento bastante útil para quem tem dificuldade de se comunicar em público ou simplesmente "não sabe ouvir". Ao terminar a participação, o sujeito deve bater o bastão no chão e gritar "Hey!" - em resposta, todos gritam "Ho!".
Encerrada mais uma etapa, Alexandre abre espaço para quem quiser falar sobre si mesmo e a programação daquela noite. Somente um rapaz se habilita: André, um calouro de Relações Públicas que aproveita a deixa para narrar a recente viagem que fez para encontrar o pai desconhecido.
Uma história, diga-se de passagem, cinematográfica. O estudante jogou o nome do pai no Google e o descobriu como candidato a vereador de uma cidadezinha no interior de São Paulo. Contrariando a mãe, partiu para lá e reconheceu nele muitas de suas características. Inclusive uma inclinação para a música, sua grande paixão.
Mas já é quase meia-noite, hora de cada um tomar seu rumo. Outra aula, a terceira de uma série de dez, só daqui a um mês. Não para mim, claro.
De qualquer forma, volto para casa com a certeza de que, descontado o discutível verniz holístico e simbólico, a proposta dos Guerreiros do Coração tem lá seu valor. Porque não é sempre que um grupo de homens deixa de lado os papos sobre mulheres, bebedeiras e futebol para tratar de suas angústias e impotências. Pena que se tenha de pagar por isso (R$ 80 por aula). (O.G.)





