Suicídio, maus tratos e negligência
Isolamento, depressão, tristeza profunda, pensamentos obsessivos sobre morte. Características de uma doença adulta que ataca também crianças. Em 2001, segundo a pesquisa, 14 crianças e adolescentes entre 10 e 14 anos, a maioria meninas, tentaram se suicidar em Londrina. Em mais de 70% dos casos, elas ingeriram medicamentos em excesso.
Uma pesquisa da Academia Norte-americana de Psiquiatria de Crianças e Adolescentes aponta que o suicídio é a sexta causa de morte entre crianças de 5 a 14 anos. No Brasil, faltam dados, até porque o assunto ou é visto como tabu ou é mal investigado em hospitais.
Segundo o pediatra e ebiatra (especialista em adolescência) Walter Marcondes Filho, os motivos das crianças não são muito diferentes dos adultos: problemas familiares, conflitos com namoradas (nos adolescentes), aceitação da sua homossexualidade, baixa auto-estima.
Ele explica que o suicídio em crianças pequenas é raro. ''Até os nove anos de idade, a criança não tem idéia da morte como algo definitivo, mas o paciente mais jovem que tratei por isso tinha 7 anos'', afirma. As crianças, ele aponta, costumam ver a morte de forma idealizada. ''Quando uma criança tem tendências suicidas costuma dizer que quer sumir, ou dormir, e nunca mais acordar''.
Segundo ele, o primeiro sinal de que algo está errado vem da escola. Baixo rendimento escolar, isolamento dos amigos, choro frequente e pensamento constante na morte. Nos adolescentes, some-se perda de apetite ou apetite descontrolado, insônia. Sintomas que se confundem facilmente com a adolescência normal. ''É difícil diagnosticar, por isso, o ideal é procurar um especialista'', garante.
O médico faz um alerta: as estatísticas brasileiras são enganosas. ''Nossa notificação é ridícula. Se algum jovem morre de um acidente qualquer, ninguém investiga como ele estava, se ele se jogou em frente a um carro ou em um rio. Vira acidente, não suicídio'', afirma.
A mesma crítica, confirmada pela enfermeira Christina Godoy Martins, vale para as notificações de internações por acidentes. Em mais de 38% das notificações, os casos são classificados como eventos de intenção indeterminada, sem causa ou responsável. ''Isso pode mascarar maus tratos'', afirma Christina. Outro fato é a negligência, que na opinião do médico, é a responsável pela maior parte dos acidentes. ''Nem deveríamos chamar de acidentes, mas de omissão dos pais que precisam acompanhar mais o desenvolvimento dos filhos'', finaliza.





