Arquivo FolhaEm altaO cirurgião plástico carioca Antônio Luiz França se deu bem: em dois anos, abriu uma clínica própria em Curitiba e conquistou uma situação financeira confortávelA cidade que atraiu imigrantes de várias partes do mundo no começo do século ainda significa a promessa de uma vida melhor para muita gente. O médico carioca Antônio Luiz Francalacci França e o especialista em informática argentino Antonio Orlando Galvez vieram para a cidade na mesma época - começo dos anos 80 - e com a mesma expectativa: construir uma vida próspera.
‘‘No começo foi difícil, enfrentei problemas financeiros e o fim do meu casamento’’, lembra Francalacci. Ele só conseguiu um emprego quatro meses depois de chegar. Trabalhou em hospitais, sempre em sua especialidade (cirurgia plástica) e, em dois anos, conseguiu abrir um consultório particular. Hoje, tem uma clínica própria, uma situação financeira confortável e se considera curitibano por adoção.
O médico conta que a escolha pela cidade aconteceu por seu porte - nem pequeno, nem grande demais. O dia-a-dia revelou outras vantagens, como o trânsito e o sistema de transporte organizados. ‘‘Posso me dar ao luxo de almoçar em casa porque só preciso de 10 minutos para fazer o trajeto’’.
Marcelo AlmeidaEm baixaO especialista em informática argentino Orlando Galvez (com a mulher) não teve sorte: saiu de um grande banco, viu seu negócio próprio sucumbir ao Plano Collor e hoje não tem expectativas de crescimento profissional
As ressalvas ficam por conta do exagero em torno da superioridade e do pioneirismo atribuído a tudo o que é realizado em Curitiba. ‘‘Em certos momentos, dizer que Curitiba é sempre melhor e está na frente do resto do país torna-se antipático para pessoas de outras cidades’’, afirma Francalacci. Na opinião do argentino Orlando Galvez, esse fenômeno tem consequências mais sérias. Ele acredita que a imagem da cidade, cristalizada pela propaganda, encobre problemas sociais como o desemprego, a marginalidade e a falta de infra-estrutura.
Depois de viver em São Paulo e Recife, o argentino veio para Curitiba com mulher e filhos em busca da qualidade de vida. Mas, a estabilidade econômica e o bem-estar social nunca foram definitivamente alcançados. ‘‘Hoje luto para não continuar decaindo economicamente e já não tenho expectativas de crescimento profissional’’.
A trajetória de Galvez em Curitiba começou na área de informática de um grande banco, passou pela abertura de um negócio próprio que não sobreviveu ao Plano Collor e hoje está na incerteza. ‘‘Minha experiência mostrou que a cidade tem os mesmos problemas de qualquer região brasileira’’, constata. Para ele, a diferença está na força do slogan alimentado pela classe dominante. (T.W.)

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