'Sozinhos não somos ninguém'
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quinta-feira, 10 de dezembro de 2015
Celso Felizardo<br> Reportagem Local 
Basta Rosalina Batista, de 68 anos, abrir o portão de sua casa, no Jardim Franciscato, na zona sul de Londrina, para receber os cumprimentos dos moradores. Todos a conhecem pelo nome. Para os mais próximos, apenas Rosa. O sinal de gratidão está implícito nos olhares das pessoas que, por determinação da líder comunitária, hoje têm água encanada, energia elétrica, asfalto. Mas o bairro não foi sempre assim.
Rosalina, nascida em Minas Novas, no nordeste mineiro, chegou ao Paraná aos 16 anos, em 1963. Foi morar com os pais e os 12 irmãos em um sítio em Tamarana. "Peguei umas geadas brabas aqui. Pra gente que veio do norte de Minas, calorão que só, foi bem sofrido", conta. Em 1979, ela se mudou para o Jardim Franciscato. Para conseguir emprego na "cidade", os moradores da periferia tinham de mentir o endereço. Com ela não foi diferente. Mas, com seis dias de trabalho como doméstica em uma casa, o patrão descobriu a manobra e a despediu.
Nunca o ex-empregador poderia imaginar que uma demissão poderia se transformar em escolas, creches, postos de saúde e a urbanização de todo um bairro. Rosalina tirou forças do preconceito sofrido para criar a Associação das Mulheres Batalhadoras do Jardim Franciscato, no final dos anos 1980. "Desenvolvemos atividades como pintura e artesanato, em seguida preparamos aquelas mulheres para reivindicar seus direitos."
Passados mais de 25 anos da criação da Associação, a atuação de Rosalina ultrapassou as fronteiras do bairro. Atualmente, ela preside o Conselho Municipal dos Direitos da Mulher e é coordenadora de duas comissões no Conselho Estadual de Saúde: da Comunicação e Educação Permanente, e da Saúde da Mulher. A parceria com uma fundação internacional também lhe proporcionou várias trocas de experiências pela América Latina, tanto que existe um centro de recuperação da mulher em Barranquilla, na Colômbia, com o nome dela.
Em uma rápida análise de sua trajetória, Rosalina destaca as mudanças ocorridas no contexto da mobilização social. "Hoje, a coisa mais importante é reunir as pessoas e dividir conhecimento, fazer as pessoas entenderem a força que têm. Sozinho não somos ninguém", diz. Segundo ela, as pessoas já não acreditam na figura das lideranças, como na década de 1990. "Quando eles começam a ser conhecidos, já querem virar políticos. Isso gera descrença e, assim, não conseguem permanecer como liderança", avalia.
Toda vez que se aproxima o período eleitoral, Rosalina conta que o assédio é grande. "O que vem de gente bater na porta perguntando se eu não quero sair para vereadora... Nunca me iludi com isso", conta. "Eu digo que já sou um agente político, com muita força, inclusive. Só não quero ter cargo remunerado", completa.
Evangélica de uma denominação conservadora, ela defende a questão de gênero nas escolas. "A gente vê que a política está se tornando uma guerra de religiões. Cada um querendo impor sua verdade. Vejo que a igualdade de gênero tem sido distorcida. Com isso, muitos avanços são freados, como a valorização da mulher, por exemplo", lamenta.
Para os próximos anos, ela espera que a população continue cobrando seus direitos, engajada em movimentos sociais sérios. "Londrina é uma cidade muito bonita, começando pelo nome: feminino, forte. Somos um grande polo que move o Norte do Estado. O erro do povo é achar que depois que ganha asfalto, água e luz, tudo já está bom. Não é assim. Temos muito mais coisas a serem conquistadas", conclama.


