A história da Escola Técnica da Universidade Federal do Paraná pode ser resumida em uma palavra: resistência. Do alto de seus 139 anos, a instituição coleciona uma série de idas e vindas. Trocou de nome e sede várias vezes, enfrentou ameaças de fechamento e até sobreviveu a um incêndio. Prestes a se desvincular da UFPR e aderir ao Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia, a escola acaba de lançar uma campanha de resgate de sua memória.
  Grande parte do acervo da instituição se perdeu no incêndio, ocorrido no início dos anos 90. Por isso, a ET agora convoca ex-alunos, professores e funcionários a doar ou emprestar qualquer tipo de registro histórico. O objetivo é elaborar uma linha do tempo e reunir tudo numa publicação especial, a ser lançada em 2009. Parte do material ainda vai integrar, também no ano que vem, uma mostra nacional itinerante promovida pelo Ministério da Educação para marcar o centenário da Rede Federal de Educação Profissional e Tecnológica.
  A trajetória da ET começa em 1869. Fundada por Gottlieb Mueller e Augusto Gaertener com o nome de Escola Alemã, tinha como principal proposta conservar a língua e os costumes germânicos entre os filhos de imigrantes. Com o fim da Primeira Guerra Mundial e a derrota da Alemanha, o Ministério da Educação iniciou um processo da nacionalização das instituições de ensino mantidas por estrangeiros. Rebatizada como Colégio Progresso, a escola foi obrigada a adaptar suas disciplinas ao idioma português. Também passou a ser dirigida por um brasileiro, Fernando Augusto Moreira, que permaneceu no cargo até 1949 e é considerado um dos idealizadores da UFPR.
  O Colégio Progresso abriu suas portas na Rua Barão do Cerro Azul, ao lado da Praça 19 de Dezembro. Quando a prefeitura ampliou e reformou a praça, nos anos 40, o prédio foi demolido e transferido para a Rua Coronel Dulcídio, onde atualmente funciona a Faculdade de Farmácia. Ainda naquela década, a Sociedade Alemã, mantenedora da escola, resolveu se desfazer de seu patrimônio. Sob o nome de Escola Técnica de Comércio, a instituição foi adquirida pela Faculdade de Direito. Já seus imóveis foram doados para a Faculdade de Medicina.
  As mudanças não param por aí. Em 1974, a escola foi transformada em órgão suplementar da Universidade Federal do Paraná. Mas alguns setores internos nunca admitiram que a UFPR abrigasse uma instituição de segundo grau. Até que, no início de 1983, a reitoria decidiu proibir a matrícula dos novos alunos.
  ‘‘A idéia dessa ala era acabar com a escola aos poucos’’, diz o atual diretor da ET, Alípio Leal Neto, que na época lecionava Direito e Legislação. Outro ex-professor, Dermeval Alves, chegou a escrever uma carta ao apresentador de TV Flávio Cavalcanti, em busca de apoio. ‘‘Os jornais locais não nos deram espaço. Mas, por intermédio do Flávio Cavalcanti, finalmente fomos entrevistados pelo Canal 6 e defendemos nossa posição’’, conta Alves.
  Leal, que também era vereador pelo PMDB, encaminhou, com êxito, uma moção de apoio para a Câmara de Vereadores e a Assembléia Legislativa. E, para garantir o direito adquirido dos alunos, ministrou a aula inagural daquele ano na escadaria do prédio principal da universidade. ‘‘Depois daquilo, os professores ficaram um ano e oito meses sem receber salário’’, lembra.
  De acordo com o diretor, a Escola Técnica só ganhou o devido reconhecimento a partir de 1985, quando o então reitor Riad Salamuni a vinculou ao seu gabinete. Salamuni também defendeu o projeto da construção da sede própria, que começou a sair do papel após o incêndio no prédio histórico da UFPR, onde a ET funcionava. Hoje, a instituição está situada no bairro Jardim das Américas, próxima ao Centro Politécnico, onde 4.115 alunos freqüentam os cursos de Enfermagem, Artes Cênicas, Contabilidade e Secretariado, entre outros.
  De volta à campanha para resgatar a memória da escola, pode-se dizer que a diretoria tem um trabalho árduo pela frente. O acervo atual conta apenas com alguns documentos e álbuns de fotografias, a maioria com datas imprecisas – o que dificulta a elaboração de uma linha do tempo. Uma exceção curiosa é um ‘‘Diploma de Burro’’, datado de 1969, ano em que o atual diretor ingressou na ET como aluno. ‘‘Era uma brincadeira que os veteranos do diretório estudantil faziam com todos os calouros’’, diverte-se.
  Alípio Leal e Dermeval Alves são exemplos de ex-alunos que, por razões afetivas, tornaram-se professores e diretores da Escola Técnica da UFPR. Mas a lista de personagens da cidade que passaram por lá ainda inclui médicos, artistas, jornalistas, desembargadores e políticos como Afonso Camargo e Renato Bueno. Se cada um deles revirar seu baú, a memória da ET estará preservada.

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