Foi justamente com as crianças que Carlos Dala Stella reaprendeu a pintar. Matias, seu filho mais velho, hoje com 18 anos, desenhava no quadro negro, em casa, antes mesmo de completar dois anos. "Eu via aquilo e copiava, copiava. Queria aprender o traçado sem preconceitos da criança. Elas desenham bem até os sete anos. Depois, começam a desaprender e a fazer do jeito publicitário." As reproduções foram registradas em um caderno. "Quando não tinha filhos, copiava dos filhos dos amigos. Entregue uma folha para uma criança: ela abstrai todo o entorno. Depois, experimente fazer o mesmo com um adulto." Dala Stella diz que se fascina quando vai começar uma obra nova: "Não me vejo como um pintor, um desenhista pronto. Sinto o medo de não saber desenhar ao iniciar cada obra. É algo fundamental." Na epígrafe de seu livro mais recente, cita Fernando Pessoa: "Melhor o impreciso que embala do que o certo que basta".
Dentre os diversos projetos, o próximo a ser publicado é o livro "Quer jogar?", realizado em parceria com a namorada, Adriana Klisys, consultora nas áreas de educação, cultura e projetos lúdicos. Quando ela viu o livro sobre as bicicletas, em 2004, pensou: "Tenho que conhecer este homem." Estão juntos desde aquele ano. "Ela foi a única pessoa que veio me perguntar se alguns dos desenhos eram feitos com a mão esquerda. Gosto do traço com a mão que não é boa justamente pela imprecisão", conta. Dala Stella fez 96 desenhos para a parceria, alguns em seus cadernos de ateliê, que ilustram brincadeiras como "Bicipipoqueira", mas também têm vida própria. "Pensei neles como objetos independentes do texto de Adriana; que tratam daquele jogo ou brinquedo, mas também funcionam como obra de arte por si só." Adriana pretende, além do livro, expôr os originais do namorado, um artista que, até hoje, ainda não teve uma exposição individual de suas telas ou desenhos em Curitiba. Em 1995, a Sala Miguel Bakun, hoje Casa Andrade Muricy, recebeu seus trabalhos em cimento. "Vejo a obra dele como uma reserva de qualidade, que a qualquer momento poderá ser acessada por grandes públicos", comenta o admirador e também escritor
Miguel Sanches Neto.
Da infância, Carlos Alberto
Dala Stella recorda do Bar Eucalipto, de propriedade de seu pai, que funcionava na frente de casa - onde hoje é uma loja de peças para automóveis. Na parte dos fundos do bar, lia Machado de Assis saltando página e fazia esculturas de barro. "Ia de bicicleta até as olarias da região e roubava os tijolos ainda frescos." O pai, Augusto Dala Stella, falecido em 1997, ele coloca no hall daqueles que considera grandes gênios como Johann Sebastian Bach e Franz Kafka. "Ele só estudou até a quarta série. Mas era um homem de uma generosidade incrível e uma habilidade manual maluca. Subia nas árvores e ficava 30 minutos em busca do melhor galho para uma setra. Me ensinou a ver a beleza na natureza. Cresci olhando o céu", conta.
Dos avós, agricultores, herdou o terreno, o qual, diz, jamais teria condições de comprar. Sonha, como o amigo de quase três décadas Cristovão Tezza, em viver da própria arte. Ainda dá aulas de português a pequenos grupos que dispendem uma boa quantia para dividir seus conhecimentos durante quatro horas semanais. Se dedica ao ateliê de oito a doze horas por dia. Dala Stella já escreveu para revistas, jornais e foi colaborador, inclusive, da Folha de Londrina. Formado em Letras, acabou por se distanciar da Academia e não terminou o mestrado em Literatura Brasileira, na Universidade Federal de Santa Catarina.
No momento, conclui uma escultura em vidro e cimento, uma encomenda de novembro de 2007 feita pelo casal de jornalistas Sonia Bittencourt e
Jean Féder. Parecida com outras sete que já instalou na cidade, a obra de 2,30 x 1,13 vai para o topo da escada em uma das entradas da casa do casal. "Entendemos que é uma obra de arte e não um objeto de decoração. Então, não pode ter prazo de entrega", opina
Sonia. "Me dedico integralmente a um projeto. É o mesmo que acontece quando leio um autor: é como se virasse um especialista. Entrego uma obra, mas faço mais de 100 rascunhos em papel e dezenas de testes com os materiais. Quando trabalho, tenho a alegria nas mãos."

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