Semana passada, a Fundação Dorina Nowill entregou 300 livros em formato CD-ROM para a Biblioteca Pública do Paraná. A doação de livros falados de literatura, psicologia, autoajuda, filosofia e sociologia vai atualizar o acervo de 1,5 mil títulos do Setor Braille da instituição. De acordo com o presidente da Fundação, Alfredo Weiszflog, os novos títulos são obras e best-sellers indicados na lista dos mais vendidos da Revista Veja. "Um mês depois que o livro sai na lista, já está gravado e disponível para os deficientes visuais. Produzimos 1,2 mil títulos em áudio, no ano passado", afirmou.
O material será multiplicado e encaminhado para o interior do Estado, através da Redeceg (Rede de bibliotecas para cegos e pessoas com visão reduzida do Paraná). "O livro falado é uma escolha do deficiente visual. Um programa de editor eletrônico digitaliza o texto e depois o transforma em livro falado com voz sintetizada pelo computador, que pode ser feminina ou masculina", informou Weiszflog, pontuando que o livro falado não substitui o livro em Braille. "A pessoa cega precisa do Braille para ser alfabetizada. Não é possível aprender a língua só ouvindo. Imagina se a gente fosse escrever como ouve a palavra ENQUANTO, poderíamos entender como ENCUÃTO", explicou.
Os usuários do Setor Braille comemoram as doações, embora ainda lamentem não haver liberdade plena de escolha de leitura. "Sonho com o dia que poderei comprar na livraria qualquer título em Braille ou digitalizado", disse o bancário Everson Martins, 23 anos, estudante de Marketing e Propaganda. "Graças a Deus, o Setor Braille tem muitos livros que eu preciso. Quando não tem, aguardo o processo de digitalização para serem gravados em aúdio. É mais rápido do que esperar a fundação atender nosso pedido", contou ele, que em casa tem mais de mil livros falados.
"Já tive que abandonar o curso de Pedagogia porque era muito difícil conseguir livros para estudar. De uns dois anos para cá, as coisas estão mais fáceis, as editoras liberam a matriz digital dos livros para a gente imprimir em Braille ou produzir em áudio", relatou Everson, ressaltando a ajuda de colegas em sala de aula para descrever o que é escrito no quadro negro. "Sempre sento ao lado de quem pode me ajudar. O bom é que geralmente as meninas são mais prestativas", brincou ele.
"Hoje, a Fundação Dorina Nowil determina o que o deficiente visual vai ler em Braille, em termos de literatura. Não temos muita opção de escolha. Somos prejudicados pela incapacidade do Governo Federal em regulamentar a Lei do Livro. O deficiente visual quer chegar numa livraria e ter a liberdade de escolher sua leitura", contextualiza Airton Marques, 54 anos, chefe do setor Braille da Biblioteca Pública, cujo acervo dispõe de revistas, livros paradidáticos, dicionários, títulos de formação científica e literatura, provavelmente, o 3º maior do país. O espaço foi inaugurado em 1980 e possui quase 300 pessoas cegas cadastradas.

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