SOM BRASILEIRO - Redescobrindo o maracatu
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quarta-feira, 02 de abril de 2008
Flora Guedes<br> Equipe da Folha 
Numa Curitiba onde é raro, talvez raríssimo, assistir a manifestações culturais no meio da rua de forma mais espontânea, sem estar previsto em algum calendário oficial ou de festivais tradicionais da cidade, causa até estranhamento topar com um grupo de pessoas tocando maracatu motivado pela expressão da própria cultura popular. Mas num passeio pelas ruas históricas do Largo da Ordem, nas tardes de sábado, é possível ter essa agradável e rica vivência proporcionada pelo Maracaeté.
Desde que os ensaios do grupo passaram a acontecer na sede da Sociedade Treze de Maio, na Rua Clotário Portugal, há cerca de sete meses, virou costume levar as batucadas do maracatu num belo cortejo pelas ruas do Largo. Belo sem exageros. O Maracaeté conquistou um lugar de destaque na cena do maracatu em Curitiba. Depois de dois anos de existência focados num trabalho profissional e estudo sobre a manifestação cultural ''exportada de Pernambuco'', o grupo conquistou brilho próprio.
São apenas 23 integrantes que parecem se multiplicar nas suas apresentações pela paixão que demonstram pelo maracatu. A percussão é afinada, transparece a disciplina no estudo, a busca pela perfeição. As toadas são cantadas com vigor, as vozes se completam com harmonia. O figurino não é de uma nação de Baque Virado típica pernambucana, com toda a corte do rei e da rainha, mas é caprichoso o suficiente para os componentes, quase todos músicos da mini-orquestra - há apenas duas dançarinas.
Aliás, o capricho do Maracaeté com o visual é difícil de se ver em outro grupo curitibano. As mulheres enfeitadas, com flores nos cabelos e vestidas de saia rodada, conferem a beleza e graça ao grupo. A dança é um elemento que o enriquece ainda mais. Os movimentos, a coreografia e o molejo são mais naturais, lembrando as danças do candomblé - religião que tem relação direta com o maracatu.
O que se deve admirar ainda mais no trabalho do Maracaeté é a persistência e investimento na cultura popular para levá-la às ruas ''como essência do maracatu'', apesar de pouco apoio recebido. ''Curitiba é uma cidade que busca se relacionar com o comportamento europeu, conservador. Ela é reacionária e faz de tudo para evitar festas nas ruas, feitas pelo povo, mesmo que seja para levar alegria e diversão. Mas não vamos desistir de desfilar o maracatu e promover essa catarse'', diz um dos coordenadores do Maracaeté, Leandro Teixeira.
Maracaeté foi criado em 2006
''Não almejamos ser uma nação, como acontece em Pernambuco até porque uma tradição não se cria. Buscamos fundamentos para dar propriedade A uma releitura do maracatu, para divulgá-la enquanto cultura popular, por isso trouxemos mestres e batuqueiros pernambucanos para dar oficinas. Vivemos um momento em Curitiba que São Paulo e Florianópolis já vivenciaram, cidades que trabalham com o maracatu há mais de 15 anos'', explica Leandro, contando que o grupo surgiu mesmo, em 2004, durante uma oficina de percussão, mas só no carnaval de 2006, no bloco Garibaldis e Sacis, todo mundo se reuniu para criar o Maracaeté.
Como consequência do estudo mais profundo sobre o maracatu, veio o interesse pelas raízes negras e indígenas da manifestação cultural. ''Isso têm sido importante para a gente sair da abordagem artificial do maracatu, uma cultura que não nasceu aqui. As oficinas com os mestres nos ajudou muito, nos passaram o respeito pela cultura oral, dos ancestrais. O maracatu é uma universidade da vida, um exercício de viver em grupo'', acredita Brenda Maria, outra coordenadora do Maracaeté.
O processo de estreitamento com a cultura negra ganhou força com a ida do Maracaeté para a Sociedade Treze de Maio, fundada em 1888, por ex-escravos com a finalidade de apoiar socialmente os negros em Curitiba. Pode-se dizer que o local é o santuário dos negros na cidade, apesar de pouca relevância dada à história da sociedade. ''Viemos parar nessa casa, que tem 120 anos de história, não por acaso'', pontua Brenda.
O grupo planeja fazer melhorias na sociedade, como providenciar pintura nova, além de colaborar financeiramente com a manutenção da casa, onde realiza dois ensaios, por semana. ''O clima aqui é muito bom. Rolou uma sintonia e uma identificação do nosso trabalho com a casa. Queremos criar um vínculo com a sociedade, sua história com os negros, em Curitiba, e que abriu as portas para o Maracaeté'', reforça Brenda.


