SOM BRASILEIRO - Em busca da batida perfeita
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 02 de abril de 2008
Flora Guedes<br>Equipe da Folha 
Não foi à toa que o paraibano Ariano Suassuana se surpreendeu quando assistiu à apresentação do grupo infantil de maracatu Caraxalê, em 2006, na ocasião da aula espetáculo que apresentou na TV Paulo Freire Um Canal para a Liberdade. Ao ver uma garotinha japonesa tocando alfaia (tambor) e um típico polaco à frente do maracatu, manifestação da cultura nordestina e dos afrodescendentes, o escritor disparou: Esse Solak é o polaco mais negro que já vi. O sotaque carregado de Ariano acabou por modificar a pronúncia do sobrenome do professor de Artes Plásticas e músico Pedro Solak, de 34 anos, para Solaque.
Um dos primeiros a se envolver com o maracatu, em Curitiba, Pedro Solak faz da cultura popular seu trabalho e sua forma de sociabilizar. Conheci há dez anos, quando veio aqui uma batuqueira do Maracatu Estrela Brilhante, de Pernambuco. Desde então, o maracatu é o meu meio de juntar as pessoas, minha bicicleta que me leva aonde quero ir. É minha forma de respeitar o ser humano e a diversidade, de fazer amigos e também está presente no meu trabalho com as crianças na escola, conta ele que ensina maracatu numa oficina de cultura popular do Colégio Nossa Senhora do Rosário, no Bacacheri, há quatro anos, para alunos de 9 a 14 anos. O grupo foi batizado de Caraxalê.
Quando comecei o trabalho com as culturas populares houve um alvoroço sadio aqui na escola e chegou a tocar os pais. A oficina de maracatu fascina as crianças e os adolescentes, pela percussão, colorido e toda a riqueza cultural. Não tem como ficar parado quando se ouve o maracatu, porque a batida é energizante, mexe o esqueleto, chacoalha o espírito e alegra a alma. O mundo inteiro quer o maracatu, diz Solak, informando que o Caraxalê anima dois eventos escolares, por ano, quando os integrantes se apresentam vestidos com figurinos produzidos pelos próprios alunos nas aulas de Artes.
Dentro do trabalho com as culturas populares os estudantes conheceram outras manifestações culturais como o boi de mamão, coco de roda, samba de roda, jongo, cavalo-marinho. Eu falava com propriedade e paixão sobre o maracatu, as crianças ficaram empolgadas e queriam tocar os tambores. Foi aí que o colégio permitiu nossas aulas, conta o professor. Veja que é um colégio de freiras, por isso foi importante nesse processo o respeito de ambas as partes. Quando comecei a ensinar as toadas, procurei aquelas que aproximavam o maracatu da escola: Oh Senhora do Rosário / a sua casa cheira / cheira cravo, cheira rosa / cheira flor de laranjeira, canta Solak.
Além de coordenar grupos de maracatu e ser batuqueiro, o professor produz alfaias cuja técnica aprimorou numa de suas viagens a Pernambuco. Falta pouco para completar 50 tambores, que já foram até para Londres, Guatemala, Argentina e México, além de serem utilizados pelos integrantes do Caraxalê. Esse trabalho com a cultura popular tem sido muito importante porque ele despertou nas crianças o interesse pela cultura brasileira e até mundial. Passaram a ser observadores desse universo. Temos uma aluna da oficina que é descendente de japoneses, mas só após o maracatu é que os colegas pediram que ela tocasse o taikô, um tambor japonês. Essa troca é maravilhosa, vibra ele, se referindo a Munise Fugekami, de 14 anos, que escolheu o nome Caraxalê.
Relacionei com o barulho que faz o caracaxá (instrumento) e todo mundo gostou. É muito bom tocar maracatu, pela alegria e por ser uma cultura diferente da minha. Acho que por isso chama a atenção das pessoas o fato de eu ser uma japonesa tocando maracatu, raciocina a garota. A pequena Nahomi Santana, de 9 anos, participa das aulas há dois. Só tive que esperar entrar na terceira série para poder me inscrever. Quando eu via as apresentações do Caraxalê na escola, sonhava em aprender a tocar alfaia. O que mais gosto é o som do maracatu, conta a menina.


