São Paulo - Nome: Guto Serra. Idade: 28 anos. Profissão: promotor de eventos. Estado civil: solteiro e sem namorada por tempo indeterminado. ''Bem que minha mãe gostaria, mas não vai rolar algo sério tão cedo.'' Guto é o que se chama de um solteiro convicto. Deu férias coletivas para Santo Antônio e o Cupido. Não quer nem namorar.
De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), há mais de 74 milhões de adultos solteiros no País. E a solteirice vem sendo prolongada no correr dos anos. No censo de 2001, constatou-se que a idade média com que os brasileiros se casam subiu três anos em comparação com a pesquisa anterior. Pena não haver estatística sobre os que, como Guto, riscaram o casamento da listinha de prioridades.
Esta parece ser uma tendência mundial. Nos Estados Unidos, 25% das pessoas moram sozinhas. No Reino Unido, são 28%, o triplo da estatística de 1960. E sete em cada dez japonesas solteiras acreditam que podem ser perfeitamente felizes sem se casar.
Para o psicólogo Ailton Amélio da Silva, professor da disciplina de Relacionamentos Amorosos no Instituto de Psicologia da USP e autor do livro ''Para Viver um Grande Amor'', não é bem assim. ''Sempre houve formatos de união estável em todas as culturas, em todos os tempos'', diz. Mesmo hoje, afirma, a maioria ainda busca um par. Só que o modelo tradicional de casamento está em crise, por um motivo simples: hoje é possível ter vida sexual ativa, sem precisar sequer cogitar subir ao altar.
O controle da natalidade modificou as relações. ''Estamos num momento histórico de experimentação'', prossegue. Algumas mudanças são mais políticas, como a melhor divisão de afazeres domésticos entre os sexos e a maior participação da mulher no orçamento familiar. ''Mas modelos mais ousados também vêm sendo testados, como morar em casas separadas, sustentar uma relação aberta e, até, manter-se solteiro.''
O terapeuta Sérgio Savian, criador e diretor da Escola de Relacionamentos Mudança de Hábito, concorda que é preciso ampliar o leque. ''Nas últimas décadas, com a internet e tantos novos bens de consumo, aprendemos outras formas de trabalhar e nos divertir. É preciso perceber que também há novos jeitos de se relacionar.'' Cada pessoa pode desenhar seu modelo pessoal de realização afetiva.
Guto afirma que testa e aprova a possibilidade de se manter solteiro já há três anos. A última relação, conturbada, terminou por ciúme. Como trabalha com eventos, ele tem como 'obrigação' profissional frequentar baladas até cinco vezes por semana. ''Adoro essa vida'', diz.
Seu maior desafio é estabelecer limites anticompromisso: deixa suas pretendentes avisadas logo no primeiro encontro. O bancário Felipe, 23 anos, que pediu para não ter seu nome completo publicado, também é determinado: ''Quando as coisas fogem do controle, deixo que a razão se sobreponha à emoção e termino o casinho.''
Ele já namorou duas vezes, mas, há dois anos, decidiu não se envolver em algo mais sério antes dos 30. ''A liberdade é a principal vantagem'', diz, mas ressalta pequenos prazeres da solidão como não precisar arrumar a casa e... não ter sogros.
Maturidade Fazer concessões parece ser a maior dificuldade dos solteiros convictos. Casada três vezes, a gerente comercial Regina Castro, 40, não pretende trocar alianças nunca mais. ''Não diria que não acredito na instituição do casamento, apenas não quero mais isso para mim'', diz. ''Me tornei uma mulher mais seletiva, mais exigente e diria até que, bem, mais chata mesmo.'' Sozinha há nove anos, ela considera a possibilidade de voltar a namorar um dia. Só que sem convicção: ''Ninguém me encanta.''
Mas, sim, é possível optar pela solteirice sem que isso denote dificuldades afetivas ocultas. ''Sua relação com o amor pode ser personalizada'', afirma o psicólogo. Isso requer maturidade, autonomia e independência o que, por ironia, é muito sedutor.

SERVIÇO: Escola de relacionamento do terapeuta Sérgio Savian: www.mudancadehabito.com.br

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