A jornalista Helenida Taufik Tauil da Costa Branco é um dos vários Papais Noéis que moram em Londrina e que, com trabalho voluntário, fazem do Natal uma data esperada com mais ansiedade do que o normal pelos pacientes dos hospitais Santa Casa e Mater Dei.
A iniciativa foi tomada há 16 anos, depois de um convite de uma das irmãs da Santa Casa. Na ocasião, o hospital estava sem Papais Noéis para visitar os pacientes, o que foi prontamente solucionado por Helenida. O trabalho ganhou continuidade, mas já no ano seguinte, Helenida perdeu o posto de Papai Noel para o marido, o engenheiro civil Carlos José Morais da Costa Branco. ''Saíamos escondido de casa porque nossa filha mais velha, então com 2 anos, ainda acreditava em Papai Noel e fazia um escândalo quando nos via. Com o tempo, a família Noel foi aumentando, com a participação de outros parentes. No ano passado, o grupo já era de 12 pessoas'', conta a jornalista.
Antes das visitas, a família Noel compra balas para distribuí-las entre os pacientes. ''Também levamos abraços e beijos'', brinca Helenida, contando ainda que a experiência faz com que a família acumule cada vez mais histórias, ora emocionantes, ora tristes. ''Sabemos de alguns funcionários que trocam de plantão para poder acompanhar nossas visitas, que acontecem junto com a da banda municipal. Quando chegamos, vemos de tudo: gente que sai dos quartos para dançar, gente que começa a chorar... Acho que é porque é uma data que exige muita reflexão por parte das pessoas'', tenta explicar.
Toda a história é contada por Helenida com muito bom humor, característica que, por sinal, se faz presente em todos os Papais Noéis entrevistados pela Folha. Um deles, a propósito, faz questão de lembrar: ''Além de bom humor, é preciso gostar muito de crianças'', afirma o técnico em piscinas, Washington Santos, Papai Noel voluntário, há 12 anos visitando hospitais e asilos da cidade. ''Uma boa barriga também ajuda bastante'', reforça o rechonchudo Papai Noel do Comitê de Solidariedade dos Funcionários da Sercomtel, Luiz Alves Bicudo, que, enquanto não está distribuindo presentes em creches e hospitais, faz bicos como técnico da empresa de telefonia.
Nem é preciso dizer que a presença do Papai Noel chama a atenção por onde quer que passe. No Jardim Morumbi (Zona Leste da cidade), o vendedor Fábio
de Souza Pinto precisou até emprestar uma charrete, tamanha a popularidade do personagem entre as crianças do bairro. ''Entreguei balas fantasiado de Papai Noel pela primeira vez há cinco anos, mas nem conseguia andar na rua de tanta criança que me cercou. Por isso, peguei emprestada uma charrete para os anos seguintes'', conta.
A história de Fábio, por sinal, dá uma mostra de como os voluntários se apaixonam pelo que fazem. O vendedor foi convidado para fazer um bico como Papai Noel em um shopping da cidade em 2000, graças ao próprio peso. ''Eu tinha 98 quilos, nem precisava de enchimento nas roupas'', lembra. Uma dieta rigorosa e a rotina de uma academia o fizeram perder o peso, mas não a vontade de continuar o trabalho voluntário no bairro onde mora.
Desde então, Fábio arrecada balas com a vizinhança. ''No ano passado, foram 70 quilos'', diz ele, que conta com a ajuda de vários amigos para visitar as crianças na véspera de Natal. ''Empresto a charrete de um, o cavalo de outro... e assim o trabalho segue. Instalo até um aparelho de som na carroça, para chamar a atenção'', diz. Música de Natal? Que nada. O Papai Noel do Jardim Morumbi trabalha embalado ao som de Mamonas Assassinas e Theodoro & Sampaio. ''É mais animado'', explica.
Questionados sobre o porquê de terem iniciado esse trabalho, todos os Papais Noéis deram explicações casuais sobre o começo. Helenida e Fábio, por exemplo, foram convidados. Washington começou o trabalho para pagar uma promessa em agradecimento pela saúde do filho. Ouvindo parte das histórias contadas por Helenida e por Fábio, fica fácil acreditar que a paixão pelo trabalho voluntário como Papai Noel brota da vivência com quem é atendido. ''Um vez visitamos o Instituto do Câncer de Londrina e um dos velhinhos internados no disse que a visita do Papai Noel era a primeira que ele recebia em meses internado. Às vezes, é impossível não chorar ou se emocionar com o que vemos ou ouvimos'', conta a jornalista.
''Havia acabado de encerrar o expediente como Papai Noel em um supermercado quando minha mãe viu uma criança correndo desesperada entre as prateleiras'', conta Fábio. ''Perguntei o que o menino queria e ele me disse que era segredo. Depois que insisti, ele me disse que iria pedir uma cesta básica para o Papai Noel, para que os irmãos dele pudessem comer no Natal'', lembra a mãe do vendedor, Rita Siqueira Pinto. ''Disse a ele que sabia onde o Papai Noel morava e que poderia levar o pedido dele. O menino chorou de alegria... Quando meu marido recebeu um dinheirinho que um amigo lhe devia, montamos uma cesta e levamos para o garoto. Ele nunca mais se esqueceu do dia em que procurou o Papai Noel''.

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