Solidariedade não tem hora
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segunda-feira, 07 de maio de 2007
Denise Ribeiro<br> Equipe da Folha 
Adão Rodrigues Vieira tem 60 anos e desde 2003 é conhecido como ''Adão da Ação Social''. Todos os dias, da meia-noite às 4 da manhã, ele atende pedidos de carona de pessoas que precisam ir ao médico e não têm condições de se deslocar por conta própria. Sem cobrar nada, Adão transporta na madrugada doentes de Curitiba, Fazenda Rio Grande e Araucária. O número do telefone para contato (3027-5308) está estampado no vidro traseiro e nas portas do Fiat Prêmio branco.
Nascido em Minas Gerais e criado em Londrina, ele mora em Curitiba desde 1978. Este ano, o trabalho voluntário lhe rendeu homenagens no Círculo Militar, durante a etapa brasileira do Campeonato Internacional de Taekwondo, na Câmara Municipal de Curitiba e na Assembléia Legislativa do Paraná. Para ele, que ganha a vida vendendo rifas durante o dia, a realização maior seria poder transportar as pessoas de forma gratuita dia e noite.
FOLHA DE LONDRINA - Quando o senhor começou esse trabalho e o que o motivou?
ADÃO VIEIRA - Comecei em 2003. Eu tinha sempre uma dor na barriga e quando dava aquela dor eu tinha que ir ao médico. Nesse dia eu estava sozinho. Era meia-noite mais ou menos. Eu queria ir para o hospital com o meu carro, sempre tive um carrinho velho, mas com aquela dor não dava. Comecei a orar a Deus e fui tomar um banho. Quando terminei, aquilo tinha passado. Então eu disse: ''Acho que alguém está precisando de mim nesse horário da madrugada. Porque é um horário que não tem ônibus e assim como aconteceu comigo está acontecendo com alguém por aí''. No outro dia eu levantei cedo, fui na gráfica, mandei fazer uns cartõezinhos e comecei a distribuir. Aí começaram a ligar pra mim, começaram a me dar os parabéns e foi crescendo a vontade de ajudar. A rádio Curitiba, uma rádio comunitária que existe ali no CIC, começou divulgar o meu trabalho e continua divulgando. As pessoas ligam, eu sempre estou indo e tomei gosto pela coisa. Quando eu perdi a mão (direita) eu tinha 19 anos de idade, me ajudaram muito financeiramente e moralmente. Passei aquela fase difícil da minha vida e isso também me ajudou porque eu lembrava que eu disse que um dia eu podia ajudar alguém. Eu pensava que ia ser uma coisa bem simples, um ligava hoje, outro na semana que vem. Mas não, começou a ligar três, quatro pessoas por noite. Então eu senti que é muito útil o meu trabalho.
FOLHA - O senhor já fez as contas para saber quantas pessoas ajudou até hoje?
ADÃO - Eu fiquei tão empolgado que eu não marquei nada. Depois de quase dois anos é que me aconselharam: ''Um dia alguém vai perguntar para você. Começa a marcar''. Hoje eu tenho marcado mais ou menos 200 pessoas, mas acredito que levei muito mais. Devo ter levado umas 400 a 500 pessoas.
FOLHA - Alguma vez o senhor pensou em parar?
ADÃO - Eu acredito que não consigo parar. Levei uma vez uma menina que caiu do beliche e a mulher pensava que ela tinha quebrado o braço. Quando cheguei lá no Hospital do Trabalhador eles bateram chapa e não estava quebrado. Aí enfaixaram o braço da menina, deram injeção e ela voltou sorrindo. Ela veio gritando e voltou sorrindo, então isso me marcou bastante. E tem uma outra história. Levei uma senhora para ganhar neném e ela foi gritando, gritando. Cheguei ao hospital, ela foi descendo do carro e já ganhou neném. Quase foi dentro do carro. Depois de uns 15 dias o marido dela ligou na minha casa me parabenizando e me agradencendo. São coisas fantásticas. Quando você leva uma pessoa que vai gritando e volta numa boa, aquilo ali para mim não tem dinheiro que paga. E acho que enquanto eu tiver vida e saúde eu vou continuar fazendo esse trabalho.
FOLHA - As pessoas procuram retribuir o senhor de alguma forma?
ADÃO - Às vezes, eu me sinto até mal quando a pessoa me oferece dinheiro porque está escrito na porta do carro que é gratuito. E as pessoas falam: ''Eu queria dar 'cincão' para te ajudar''. Eu digo: ''Com esse dinheiro você não está me ajudando, está ajudando o próximo que vai ligar. Porque esse dinheiro eu vou usar para colocar gasolina para ajudar aquele que vai ligar amanhã''. Dependendo da situação da pessoa eu não pego, porque a gente vai conversando e percebe que a situação está ruim. Cinco reais para ela valeria por 50 para quem tem. O dinheiro para mim não importa o que importa é ajudar essas pessoas na hora em que elas mais precisam.
FOLHA - Alguém já agiu de má-fé com o senhor?
ADÃO - Não. Eu tenho uma sorte tremenda, porque eu tenho um Deus vivo em que eu confio e esse Deus é que me dá força para isso. Ligaram uma vez, deram um endereço, cheguei lá, chamei, buzinei e ninguém apareceu. Fui à rádio e falei: ''Não faça uma coisa dessas porque com a gasolina que eu gastei para ir até a sua casa, eu poderia ter ido acudir outra pessoa''. Mas em 99% nunca aconteceu nada, graças a Deus.
FOLHA - O senhor já recebeu alguma crítica?
ADÃO - Não. Eu recebi só os parabéns.
FOLHA - Alguém já ofereceu algum tipo de apoio?
ADÃO - Não. Eu já fui à rádio um dia e pedi, porque o meu problema é durante o dia. Os telefones tocam direto e eu não posso ir. Como não achei ninguém para me ajudar financeiramente tenho que trabalhar. Sou rifeiro. Pego aqueles ursos de pelúcia, coloco nas costas, saio de porta em porta batendo e oferecendo minha rifa. O pessoal pega, eu dou os prêmios direitinho e através disso é que eu vivo há 27 anos.
FOLHA - Por que um trabalho voluntário como o que o senhor faz é tão raro?
ADÃO - Eu acredito que é ganância. Eu não tenho nada, sou uma pessoa pobre, mas muito rico em espírito e vontade de ajudar o próximo. Então se para mim dá para fazer esse trabalho e eu não passei fome até hoje, por que esses caras que têm bastante não podem fazer um pouquinho para cada um? Principalmente para essas pessoas carentes, que não têm condições. Esses políticos mesmo, por que não fazem alguma coisa para ajudar esse pessoal? Tem uns que fazem mas têm condições de fazer muito mais. E os empresários, se a sociedade empresarial investisse nesse povo a situação mudava no nosso País. Eu fico irritado porque tem pessoas que têm tanto dinheiro que se viverem 200 anos não conseguem gastar o dinheiro que têm. E ninguém fala em ajudar o pessoal pobre. O que eu gostaria de pedir para as pessoas é: ''Se alguém pediu para você fazer alguma coisa por ele, não adia, faz na hora. Porque se você não recebe do ser humano, você vai receber de Deus''.
FOLHA - As despesas com gasolina representam quanto da renda mensal do senhor?
ADÃO - Eu ganho uma média de R$ 1,3 mil a R$ 1,4 mil por mês. Minha esposa ganha mais uns R$ 700 a R$ 800. Com esses R$ 2 mil, só em gasolina nós gastamos R$ 900. Este ano, graças a Deus, o carro não quebrou, mas no ano passado eu fiquei no vermelho. Eu queria até passear e não deu. Mas sabendo que é por uma boa causa, não estou nem aí. O negócio é trabalhar e ajudar o próximo porque não tem coisa melhor.


