Sociedade precisa mudar de canal
Sociedade precisa mudar de canal
Folha: A imprensa ainda tem muito o que avançar nessa área de promoção da vida humana?
Bock: Muito, muito, muito. Porque ainda está no antigo paradigma. A notícia que precisa vender jornal. Busca o sensacionalismo, que vai para a primeira página, que provoca a venda do jornal. Até a imprensa cria esse sensacionalismo que às vezes nem existe. A imprensa cria para vender jornal, o rádio para conseguir ouvintes, com isso anunciantes, a TV idem. O que nós estamos procurando trabalhar com a imprensa é: a boa notícia também vende jornal. Dá Ibope, traz anunciante. Depende de como ela é tratada. Tem que ser tratada da mesma forma como se trata o sensacionalismo. Um bom título, um bom lead, fotos sedutoras e boas imagens. É a mesma coisa. O público tem carência desse tipo de informação.
Folha: Mas os programas sensacionalistas na TV como Ratinho e Leão Livre mostram que o público tem aprovado, cada vez mais, a exploração da miséria humana. Como reverter essa tendência?
Bock: É outro processo de mudança que estamos todos empenhados em desenvolver. Alguns meios de comunicação já estão dando mais ênfase a coberturas sérias de fatos das áreas sociais, especialmente saúde, educação e justiça. E cobrem experiências bem-sucedidas. E nem por isso vendem menos ou têm audiências menores. É uma questão de posicionamento do meio em relação à qualidade, à ética, à valorização de seu próprio público, leitor, ouvinte ou telespectador. Promovendo a educação de qualidade, por exemplo, vamos fazer a sociedade mudar de canal.
Folha: Exemplifique, por favor:
Bock: Na área de mobilização social do Unicef, fazemos treinamento de radialistas, sempre procurando encontrar as melhores formas de comunicar. Fizemos cursos de motivação de radialistas de todo o Norte e Nordeste. Esses cursos abordavam toda problemática da criança e do adolescente, saúde, educação, direitos. Eles faziam curso e ajudavam a mudar a programação de suas emissoras, a sua cabeça. A gente criava adesivo com mensagens como: Use o soro caseiro se seu filho estiver com diarréia, de forma que ele tirasse o adesivo e colasse na sua cabine. Toda vez que houvesse um problema técnico, por exemplo, o radialista jogava no ar aquelas frases. E outras como Conheça o Estatuto. Com esse trabalho, os radialistas passaram a valorizar a Pastoral, Fórum dos Direitos da Criança e do Adolescente, os conselhos de direitos da criança e adolescente. Antes, ele (radialista) não conhecia. Então, o tema passou a ser não somente sensacionalista. Passou a ser tema de inclusão social. Passaram não só colocar mensagem, mas fazer entrevista. Mandamos a cada 15 dias até hoje um boletim com os principais temas que estão em foco e dando dicas de pauta, como desenvolvê-la e até sugestões de pessoas para entrevistar nos municípios. Esse material está acessível para todos os jornalistas do Brasil através da Internet. Além disso, o Unicef, através da Pastoral da Criança, distribui programas de rádio para mil emissoras do País.





