‘‘De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantar-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto.’’ A frase de Rui Barbosa traduz uma nítida e notória mudança de valores vivida hoje.
O aluno que não respeita mais o professor; o filho que ignora e passa por cima dos ensinamentos dos pais; o sujeito que perde a paciência no trânsito a troco de nada; o adultério que é usado como a melhor saída para um relacionamento que chegou ao fim; a banalização do sexo; filho que mata pai, mãe e vice e versa; o político que aparece enfiando dinheiro na meia, na cueca e quando questionado responde: ‘‘todo mundo faz isso!’’; a falta de respeito com os mais velhos; a ausência de solidariedade; a honestidade tida como coisa do passado; o indivíduo que se ofende a ser cobrado de uma dívida; entre outros exemplos.
Palavras que deveriam fazer parte do nosso cotidiano, como bom dia, boa tarde, boa noite, obrigado, sim senhor(a), por gentileza e por favor, já não são tão comuns. Os tempos mudaram, a evolução não pode ser controlada e a correria do dia a dia é inevitável, mas tudo isso não serve como desculpa para a falta de educação, caráter, pudor, respeito e decência.
É evidente e público que a carência de valores cresce com o passar dos anos. Os valores apreciados são antagônicos, absurdos e cada vez mais despreocupados. Meios e atitudes colaboram - e muito - com esse processo. Impera hoje, em muitos casos, a ética do dinheiro, do ter e não do ser.
A tendência disso tudo é piorar? Para que rumo o mundo caminha? De quem é culpa? Há solução? Qual? Qual o papel da família e da religião nessa inversão de valores? Quais os desafios de se educar um filho nos dias de hoje? Para responder a essas perguntas e algumas outras, a FOLHA convidou especialistas e cidadãos comuns para falar sobre esse tema.

‘‘Nosso mundo está imediatista, consumista e supervalorizando o lado material. A maioria dos jovens que saem para a balada, por exemplo, quer aproveitar ao máximo, custe o que custar. E é por isso que muitos acabam sendo promíscuos, caindo muitas vezes no mundo das drogas, uma armadilha que talvez possa não ter volta. Acredito que dois fatores fazem a diferença para o jovem realmente ter um futuro certo na vida: o modo como foram criados e o seu caráter. Pois, de nada adianta ter um bom caráter e nascer em uma família toda desestruturada, ou ter uma superfamília e não ter princípios morais. O diálogo sempre foi a fonte mais rica de se obter o caráter.’’
Camila Kowalski – estudante de Publicidade e Gastronomia, Curitiba

‘‘Tudo o que uma mãe quer é ver os filhos crescerem bem e poder proporcionar a eles um bom estudo, exemplos bons e ver que eles seguiram isso. Nós, pais, tentamos ser o exemplo. Meu maior medo é que no meio do caminho eles se percam por meio de maus companhias. Entendo que eles vão ter que ver muita coisa errada na televisão, e o maior desafio também é ensiná-los a filtrar isso. Amizades contam demais. Tem gente que acha que porque tem dinheiro pode tudo e, companhias assim, definitivamente, não são boas. A receita para que tudo dê certo na criação de um filho ninguém tem. É preciso ensinar aos filhos que atitudes erradas geram consequências e perdas. Um futuro bom depende das escolhas que fazemos’’.
Odila Gasparotti Serea, empresária, mãe de dois filhos, Miguel, 6 anos, e Francisco, 4, Apucarana.

  ‘‘As relações humanas estão deterioradas e isso não está estritamente veiculada ao sexo. Tem tudo a ver com a própria interação social e com os diferentes níveis sócios-econômicos. A começar pelas relações humanas, que eu considero hoje banalizadas. Quando pensamos em aprimorar a vida sexual, precisamos pensar em aprimorar o relacionamento social, respeitando sempre a diversidade. Há uma diversidade na forma de encarar o sexo na cultura brasileira. As pessoas têm conseguido viver a vida sexual com autonomia. Mas não podemos abrir mão do papel da família na educação sexual. Quando os pais educam com esses valores humanos eles estão preparando seus filhos para relações humanas e também relações afetivos sexuais saudáveis e positivas.’’
Mary Neide Damico Figueiró – psicológa e doutora em Educação, Londrina

‘‘Os valores vão se alterando até mesmo por questões históricas. O que vemos hoje e causa preocupação é o volume de informação. Um jovem que utiliza a internet tem acesso a todo um mundo novo, diferente do dele. Ele vai se valer dessas informações para criar o seu conceitual, sua referência de valor, do correto ou não. Até pouco tempo atrás a família era a principal formadora dos valores. O que aconteceu no decorrer do século XX é que tivemos um esvaziamento da família em virtude do trabalho. A criança passa quase todo tempo na escola e ela não tem função de dar educação moral e sexual, por exemplo. Se não pensarmos em uma nova forma de fazer com que os indivíduos se encontrem, a tendência é eles começarem a procurar outros valores.’’
Wilson Matos – professor de Sociologia, Londrina

‘‘As pessoas hoje assumem como valores determinados comportamentos e atitudes que nunca os foram. O amor livre nunca foi um valor, o liberalismo sexual e comportamental também não pode ser assim considerado. As pessoas hoje são guiadas pelo gosto pessoal. Mais do que inversão, acredito que hoje há uma banalização dos valores da vida humana e cristã. Quem cultiva um relacionamento legal com Deus, que tem uma religião e leva a sério os compromissos de sua fé, com certeza será elemento fundamental na construção de um mundo melhor. Vejo que vamos conviver com situações diferentes e conflitantes sempre. O trabalho da família, das igrejas e da escola será cada vez mais desafiante.’’
Dom Anuar Battisti - arcebispo de Maringá

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