São Paulo - O comportamento dos animais, às vezes, nos parece muito cruel e incompreensível. Casos de cadelas que abandonam ou matam suas crias chocam muita gente, mas tais atos são explicados pela biologia: as atitudes aparentemente violentas dos bichos de estimação são motivadas por necessidades de sobrevivência.
De acordo com a médica veterinária Rúbia Burnier, especialista em comportamento animal, etologia e adestramento, matar os filhotes é uma atitude que está ligada a natureza da vida animal: o instinto básico da própria sobrevivência.
Isso quer dizer que do ponto de vista da justificativa das cadelas, exterminar alguns filhotes pode estar ligado a um estado de desnutrição muito grande da mãe, um estado físico comprometido ou mesmo uma alta carga de estresse do cão.
''O animal procura cumprir o seu papel. Ele não tem essa ótica moral, desconhece as questões éticas humanas: eles agem por instinto. Portanto, elas podem rejeitar, matar, ingerir ou apenas abandonar aquele filhote que parece ter menos chance de conseguir sobreviver'', explica a profissional.
Existem algumas situações que favorecem a rejeição dos filhotes, como ninhadas muito grandes, animais fracos ou fisicamente debilitados. ''Ela pode optar pela eliminação do filhote fraco, já que ela vai ter de gastar energia naquele que acredita ter mais chances de sobrevivência. A lei da evolução é essa: a de passar os genes para frente'', explica.
A criadora Claudia Pimentel diz que a falta de apego aos filhotes é comum. Como proprietária do canil, já presenciou diversas cadelas com pouca vocação para ser mãe. ''Isso acontece muito quando se trata de cesária, a cachorra acorda e não reconhece o filhote. Às vezes, matá-los não é intencional, apenas não há muito cuidado ao manipulá-los'', diz Cláudia.
É verdade que algumas cadelas não têm um instinto maternal desenvolvido. Outras, são ansiosas demais, lambem compulsivamente o filhote, são brutas e podem pegá-los com muita força com a boca ou machucá-los na hora de cortar o cordão umbilical durante o parto.
Sem consciência de sua própria força, Meg (uma dálmata de dois anos e meio) já matou duas crias seguidas na tentativa de carregar os filhotes com a boca. Como não poderá mais procriar, será doada pelo canil. ''Ela é filha de uma excelente mãe e pariu cria normalmente, mas não podemos mais arriscar uma perda. Ela vai ser doada, mas quem adotá-la deverá se comprometer a castrá-la'', conta Cláudia.
A falta de instinto maternal varia de acordo com a cadela e não está ligada a uma raça específica, mas a individualidade do cão. ''Trata-se de uma inabilidade por não ter aprendido com sua mãe. Eles são comercializados muito cedo e o modelo apresentado para substituir esse convívio natural com os pais é de uma espécie que não tem nada a ver com eles: a humana'', completa Rúbia. O fato de uma cadela ser brava não significa que será uma má mãe.

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