São Paulo - Falta tempo para tudo. Para cuidar da saúde, dos filhos, da casa, das obrigações do trabalho e, nem se fala, para ler um bom livro, investir num curso, namorar e desfrutar de momentos de lazer. São tantas atribuições diárias que se chega ao fim do dia com aquele gostinho de frustração por não ter dado conta de tudo. E as mulheres se ressentem mais disso do que os homens, de acordo com o estudo Mulheres, Problemas e Necessidades de Gestão de Tempo, desenvolvido pelo especialista em produtividade pessoal e empresarial, Christian Barbosa, diretor executivo da Tríade do Tempo, empresa que oferece programas e palestras em companhias e para seus próprios funcionários.
Quando a mulher deixa de fazer algo por falta de tempo, se cobra mais, gerando culpa excessiva e sensação de mal-estar. O homem não se culpa tanto, apenas diz: ''paciência'', e segue em frente.
Queixa recorrente entre as mulheres, a falta de tempo virou um problema crônico. Para a pesquisa realizada por Christian, foram entrevistadas, em 2007, 5.362 mulheres de vários Estados - com concentração maior em São Paulo e Rio de Janeiro. As participantes - com idades médias de 34 anos, e a maioria casada - responderam um questionário on line. Do total, 61% não conseguem equilibrar as vidas profissional e pessoal, e 78% não dedicam tempo suficiente para sua vida sexual e para relacionamentos.
Os dados serviram de fonte para o livro ''Você, Dona do Seu Tempo'' (Editora Gente), de autoria de Christian. Quando lançou o seu primeiro título, ''A Tríade do Tempo: A Evolução da Produtividade Pessoal'' (Editora Campus), ele se baseou numa outra pesquisa, de 2005, que envolveu mais de 15 mil pessoas. O objetivo era descobrir como o brasileiro utilizava seu tempo. Naquela época, não acreditou que pudesse haver diferença entre os gêneros, até que se deparou com uma realidade feminina singular.
''Essa descoberta mudou a minha visão, que era de certa forma machista'', confessa Christian. ''Sou casado há nove anos e nunca havia lavado uma louça. Boa parte dos problemas delas está relacionada à sobrecarga de tarefas, por causa dos vários papéis que assumem. Com as estatísticas em mãos, comecei a lavar louça e a partilhar outras tarefas domésticas. Escrevi também o livro para ajudá-las a administrar melhor o tempo, para que encontrem um equilíbrio.''
Centralizadoras
O segundo estudo desenvolvido por Christian, Mulheres, Problemas e Necessidades de Gestão de Tempo, aponta para a dificuldade feminina de dizer não. Sem conseguir recusar nem delegar trabalho, elas assumem mais e mais compromissos. O ponto positivo é que, nessa corrida maluca contra o relógio, conseguem executar multitarefas.
Acostumadas a apagar incêndios, realizam várias coisas simultâneas. No entanto, o problema de ser mulher-maravilha é que, a cada interrupção causada pelo excesso de atividades, gasta-se de 15 a 25 minutos para retomar o trabalho no ponto produtivo de antes, avisa Christian.
''Hoje há mulheres equilibristas, forçadas a administrar uma agenda insustentável'', atesta a escritora e historiadora Rosiska Darcy de Oliveira, 60 anos, autora do ivro ''Reengenharia do Tempo'' (Editora Rocco). ''Esse estilo de vida que está sendo disseminado como normal, em que quantidade ganhou o sinônimo de qualidade, é uma aberração.''
Em viagens pelo País, Rosiska diz ter encontrado muitas pessoas infelizes, principalmente aquelas na faixa dos 40 anos. ''Vejo que está batendo um cansaço muito grande, por isso é importante rever essa dinâmica diabólica, que tem gerado mulheres culpadas, casais em conflito, crianças desassistidas e idosos solitários - problema que já não está apenas na esfera pessoal, mas também na pública. A vida como está não cabe em 24 horas.''
Na contramão do ''tempo é dinheiro'', a escritora sustenta que ''tempo é liberdade''. Rosiska tem conseguido driblar os ponteiros do relógio. Conforme conta, primeiro começou a enxergar seu ritmo alucinante como um ''problema''. Depois, criou uma escala de prioridades, sacrificando até mesmo alguns itens relacionados à ''carreira'' - e olha que ter menos ambição profissional neste mundo não é fácil. Em seguida, passou a dizer ''não'' e a recusar convites.

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