A casa amarela e vermelha da Rua Engenheiro Rebouças, como muitas outras da região, é cercada de muros altos e grades. ''Em todo lugar tem ladrão'', afirma Iraci Maoski, a proprietária. Localizada num lugar movimentado do Rebouças, a edificação conta com uma proteção extra contra as mazelas da vida urbana: um São Jorge estrategicamente colocado no frontão da fachada. O santo está lá há 50 anos, desde que a casa foi construída, e foi mantido pelas três famílias que já passaram por lá. ''Compramos assim e, como somos católicos, resolvemos deixar ele lá'', explica. A casa da Engenheiro Rebouças está na família Maoski há 25 anos.
A presença de um santo na fachada das casas é um detalhe arquitetônico em franca extinção. Mas que era frequente em residências católicas no passado. ''É um recurso que marca a separação entre a rua, que é profana, e o interior do lar, que é sagrado'', explica a fotógrafa Lina Faria, que registrou esses nichos por todo o Brasil.
Os santos eram uma garantia de proteção à residência. ''A rua é cruel. Então o espaço familiar precisa se preservar disso'', indica. ''É o que se chama de magia propiciatória, ou seja, que proporciona algo. Ou seja, os santos não estão ali para que o dono da casa reze por eles. Está para garantir algo que, no caso, é proteção'', explica Key Imaguire Júnior, professor de arquitetura histórica da Universidade Federal do Paraná.
Para Lina, os nichos são um símbolo de uma era de respeito e proteção ao lar. ''A casa era um espaço da família, um lugar sagrado, seguro'', conta. Em geral, eram propriedades que passavam de uma geração a outra da família. ''No passado a ligação com a casa era tão forte que as propriedades tinham nome''. observa.
A ligação do homem com a moradia foi sendo reduzida, na opinião de Lina, pela exploração imobiliária. A presença dos santos na fachada, segundo ela, também marca o aparecimento de uma cultura espontânea, sem valor arquitetônico, mas marcante para a comunidade. Hoje, a santidade da moradia está presente na constituição federal, que aponta o lar como abrigo inviolável.
A função de proteção que as imagens sagradas representavam também ficou para trás. ''Antigamente bastava o santo para proteger a casa. Hoje é preciso muito mais que isso'', lamenta. ''Antes as pessoas confiavam ao santo aquilo que hoje entregam na mão de alarmes, cães e cercas eletreficadas'', completa. No entanto, observa, a função de proteção mágica ainda é utilizada hoje através de outros recursos. ''É o caso do espelho, no Feng Shui, e da ferradura que as pessoas colocam na porta para dar sorte'', diz.
''O que observamos é que essa tentativa de separação entre o interno e o externo está presente em várias culturas'', aponta. Nas vilas formadas no início do povoamento do Brasil, por exemplo, o fogo tinha papel fundamental na demarcação do espaço familiar. ''As vilas eram contadas pelo número de homens de bem e pelo número de fogões'', conta. Já os santos vieram depois e traziam a marca dos recursos do lugar. ''Nas cidades em que havia exploração abundante de madeira, a maior parte dos santos é feita desse material. Já onde havia pedra, as imagens foram esculpidas nelas'', explica.
''Em Curitiba, os santos da fachada são encontrados em casas dos bairros mais tradicionais'', revela Imaguire. ''No entanto, o que se vê mais são nichos vazios, fechados. É uma tradição em desuso'', adianta.
Os santos, em geral de devoção da família, ficavam em nichos no topo do frontão da casa, protegidos por um vidro e iluminados por uma lâmpada. Em outros estados brasileiros, Lina encontrou características diferentes da capela tradicional paranaense. ''Do Rio de Janeiro para cima é muito comum observar sicretismo, ou seja, uma convivência pacífica de santos católicos com figuras da Umbanda'', conta.
Lina é uma das poucas pessoas a se interessar e documentar a presença dos santos nas fachadas de moradias. Esse trabalho é parte de uma ampla pesquisa que ela realiza há anos sobre um tema mais amplo: a relação entre o homem e o lar. ''Mas eu sempre digo que é uma pesquisa empírica, já que não tenho o suporte necessário para me dedicar a esse trabalho'', explica.
Atualmente, como fotógrafa da Cohapar - Companhia de Habitação do Paraná, Lina tem tido mais oportunidades de registrar as características dos lares brasileiros através da fotografia e a ligação do homem com esse espaço. ''A idéia é transformar esse material em livro, mas ainda não tive a oportunidade'', diz.

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