O professor de MBA da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Antônio Raimundo, é palestrante da 8ª edição do EncontrosFolha
O professor de MBA da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Antônio Raimundo, é palestrante da 8ª edição do EncontrosFolha | Foto: Divulgação



Ao longo do século passado, a economia mundial tornou-se cada vez mais complexa. Preocupados com questões de transparência, países do primeiro mundo começaram ainda na década de 1930 a criar mecanismos de monitoramento para assegurar que o comportamento dos administradores estivesse alinhado com as políticas da empresa. O conjunto de práticas recebeu o nome de governança. O conceito que só chegou ao Brasil na década de 1990, com a abertura comercial, ganhou força nos últimos anos.

Segundo o professor de MBA da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e palestrante do EncontrosFolha, Antônio Raimundo, exemplos negativos de empresas envolvidas em grandes escândalos, como a Operação Lava Jato, chamaram a atenção para a importância de se valorizar as iniciativas de controle interno. "As grandes empresas hoje têm mais cuidado com isso, porque elas sabem o potencial de risco em não ser conforme com a lei, não ser justa, transparente, digna", diz.

Raimundo explica que a governança se sustenta sobre quatro pilares, ainda sem tradução específica. O mais conhecido deles, por ser mais "tangível", segundo ele, é o compliance, termo em inglês que representa o esforço de conformidade legal. "É o esforço que fazemos para cumprir o combinado. Significa que temos disposição de fazer aquilo que foi acordado", explica. O especialista diz que o compliance é o primeiro sinal de que nossa relação vai dar certo.

"A antítese do compliance foi o caso do Petrolão. Com uma série de roubalheira, a Petrobras deixou de ser uma empresa confiável. Ela feriu o compliance. Mostrou que seus dirigentes não cumprem regras", exemplifica. Porém, Raimundo explica que o compliance nunca está sozinho. Os outros pilares da governança são o fairness, ou senso de justiça, em Português; o disclosure (transparência); e accontability, a capacidade de dar fé, de ser confiável. "São conceitos que estão sob o mesmo guarda-chuva e que, juntos, conferem a confiança, um dos principais ativos da governança", ressalta.

Apesar da maior conscientização sobre o tema na última década, Raimundo diz que os princípios de governança ainda têm um longo caminho a percorrer para se consolidar no Brasil. "Conheço empresas brasileiras que se esforçam e levam isso muito a sério, mas não é um número muito grande, não. Tem muito empresário que nunca ouviu falar", comenta. Raimundo ressalta que a ética de uma empresa é diretamente proporcional ao compromisso ético de seu pessoal. "Ensinar desempenho é mais rápido e mais barato do que ensinar postura", compara.

De acordo com o especialista, o projeto de introdução de governança em uma empresa deve ser de médio para longo prazo. "Isso passa por uma mudança de cultura. É preciso se elevar o nível de consciência moral. O maior problema do terceiro mundo chama-se impunidade. As pessoas priorizam o indivíduo, no caso ele, em detrimento à coletividade", critica.

Sobre as empresas envolvidas na Operação Lava Jato, Raimundo acredita que ainda vai levar muitos anos para elas se recuperarem. "Minha avó dizia um ditado que serve muito bem nesse caso: ‘pano branco que passa pelo anil sempre fica com um azulzinho’. Uma vez perdida, a confiança torna-se muito difícil de se reconquistar", analisa.

Para Raimundo, a Lava Jato deu uma contribuição "estupenda" ao País. "Os brasileiros estão desanimados com essa cultura patrimonialista. Quem tem dinheiro tem vantagem, sempre foi assim, mas a Lava Jato está mudando isso. É um novo país onde tendo dinheiro ou não, você será preso", exaltou. "Se há 10 anos me dissessem que o presidente de uma grande empreiteira seria preso, eu cairia na risada. Estão prendendo os mandantes do galinheiro. É um episódio épico", completa.

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