Balas, chicletes, frutas, garrafinhas de suco, carregadores de celular. O comércio informal nos semáforos da cidade oferece uma variedade de opções para o motorista interessado em aproveitar o tempo de parada para fazer uma comprinha. Nos bastidores deste ''negócio'' estão pessoas que já não conseguem se enquadrar na cada vez mais rara formalidade da carteira assinada, mas que têm simpatia e disposição suficientes para sobreviver das vendas rápidas, quase instantâneas, feitas diante do farol vermelho.
O dia-a-dia não é dos mais fáceis. Motorista estressado, chuva, frio, sol em excesso são ingredientes que rondam uma rotina que pode ir de segunda a segunda, das 8 às 18 horas. ''Os mal educados a gente não leva em conta'', revela o vendedor de frutas José Elias de Araújo, 44 anos, que já está há um ano e três meses nesta vida. ''Antes eu distribuía panfletos'', conta.
O dinheiro não é muito, ''mas dá para levar''. Araújo trabalha na Avenida 10 de Dezembro, para uma pessoa que compra as frutas e lhe paga R$ 10,00 por dia para tentar vender o máximo possível de saquinhos contendo 1,5 kg de variedades da época. Ontem as opções eram limão e poncã. A abordagem é feita a partir do preço: ''Só um real. Vai aí?''
O mesmo valor é pedido pelas guloseimas vendidas por Rodrigo Paula dos Santos, 23 anos, que diz ser o precursor da venda de doces em semáforos de Londrina. ''Minha família mudou do Rio de Janeiro para cá há cerca de dois anos. Não aparecia emprego, e quando as dívidas começaram a crescer, resolvi pegar uns doces e ir para a rua. Deu certo.''
Quem passa sempre pelo cruzamento da JK com Professor João Cândido (Área Central) certamente já foi abordado por Rodrigo e seu sorriso cativante. ''Ih, acho que hoje não vai dar, né?'' costuma dizer quando se depara com o ar cansado e desanimado de algum já conhecido motorista. No carro ocupado por jovens mulheres, invariavelmente a pergunta vem em tom de brincadeira: ''O que as mocinhas vão querer hoje?'' Toda a simpatia de Rodrigo não evita uma ou outra grosseria de condutores de mal com a vida, mas ele aprendeu que o melhor é não revidar. ''Fico na minha'', garante.
O rapaz permanece no local até por volta das 16 horas, quando pega o ônibus para voltar para casa, na Zona Norte da cidade (a vinda é a pé, para economizar). Almoço também não tem. Em casos raríssimos, quando a fome aperta demais, ele recorre a um marmitex, mas via de regra, sobrevive com o café da manhã e o jantar.
Os R$ 25,00 obtidos diariamente são divididos matematicamente: R$ 10,00 para ajudar a mãe nas despesas domésticas; R$ 5,00 para a compra de algum alimento no mercado, durante a volta para casa; e R$ 10,00 para o lazer no fim-de-semana, ''porque ninguém é de ferro'': cinema, CDs e livros (comprados no sebo).
Para outro vendedor de semáforo, Sandro Miato, de 34 anos, a abordagem dos motoristas para tentar vender balas e chicletes acaba servindo para estimular a atenção de quem está à frente do volante. ''Quando estou ali no meio dos carros, acontece uma espécie de sintonia. Não dá para explicar direito, mas sei que já consegui evitar alguns acidentes.''
Sempre de calça e camisa bem passadas, Sandro também é figura conhecida de quem transita pela Avenida Tiradentes (Zona Oeste). Aparência tranquila, boa conversa, ele explica que trabalha há 14 meses no local. ''Já tive vários empregos, mas a situação ficou difícil. Estou tentando a sorte. Uma hora dá certo.'' Os cerca de R$ 300,00 obtidos no mês são gastos com moradia e despesas pessoais. Luxos, nem pensar: ''Venho e volto a pé todos os dias do Conjunto Vivi Xavier (Zona Norte). Assim economizo o dinheiro do ônibus''.

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