"As amarras estão institucionalizadas pela legislação do Município, que nós precisamos simplificar." A declaração é do prefeito Alexandre Kireeff (PSD) em justificativa à demora nos processos de abertura de novas empresas na cidade. Ele afirma que, em 30 dias, vai enviar à Câmara um projeto que reduz os empreendimentos considerados polos geradores de tráfego e, em consequência, a exigência de Estudo de Impacto de Vizinhança (EIV).
O prefeito, que vai falar sobre os desafios econômicos de Londrina no EncontrosFolha desta quinta-feira, diz que sua administração se preocupa em trazer indústrias de fora, mas o foco principal é ajudar no desenvolvimento e expansão das empresas já instaladas na cidade. "Imaginar que vamos fazer diferença no processo de industrialização, trazendo uma ou duas grandes empresas, é subestimar a capacidade das nossas indústrias."
Para Kireeff, o pedagiamento das rodovias no final dos anos 90 e o esgotamento da capacidade de carga do modal ferroviário na região são os fatores que justificam o desaquecimento econômico de Londrina. Confira a seguir os principais trechos da entrevista concedida à FOLHA pelo prefeito:

Empresários reclamam que instalar um empreendimento em Londrina é muito demorado. Por que isso acontece?
As amarras estão institucionalizadas pela legislação do Município, que nós precisamos simplificar. Precisamos modernizar o marco regulatório. Não são todas as cidades que exigem Estudo de Impacto de Vizinhança (EIV). A nossa legislação pede EIV para um contingente muito grande de empreendimentos, especialmente pelo fato de estar vinculada a polos geradores de tráfego. E a definição do nosso polo gerador de tráfego é muito abrangente. Existem gargalos internos para analisar os EIVs dentro da Prefeitura em função de a lei exigir muitos desses estudos.

Há muitas críticas também por parte dos empresários de que os servidores públicos não deixam o prefeito trabalhar e de que há muita burocracia. O senhor concorda?
Não é isso. A solução é legislativa. Evidentemente, temos de fazer alguns aprimoramentos operacionais internos e algum dimensionamento de equipe, mas principalmente temos de simplificar a legislação.

O senhor já propôs algo nesse sentido?
Estamos finalizando dois projetos de lei: um sistematizando a tramitação do processo de EIV internamente, definindo atribuições e responsabilidades de forma objetiva. Os critérios estão muito vagos hoje. O projeto vai estabelecer prazos para cada etapa, em cada secretaria. Não existem prazos hoje. Você encaminha uma avaliação de um determinado processo de EIV e não tem um prazo legal para que a secretaria faça a avaliação e devolva. Vamos mandar outro projeto interferindo diretamente na questão de polo gerador de tráfego. Em, no máximo, 30 dias devem estar prontos.

A não aprovação do novo plano diretor também é um problema, que dificulta a atração de empresas, não é?
O projeto (do plano diretor) está no CMC (Conselho Municipal da Cidade), aguardando a avaliação do conselho. Se for necessário algum ajuste, nós faremos e encaminharemos para a votação na Câmara. Mas isso não é um problema sério.

Não é verdade que falte terreno para a Prefeitura atrair empresas e que só a definição de novas áreas industriais no plano diretor irá resolver esse problema?
Mais ou menos. Porque às margens das rodovias é possível instalar empresas, mesmo sem a expansão do perímetro urbano. Existem terrenos privados nessa condição. Os públicos realmente estão a ponto de saturação. Mas não quer dizer que estejamos parados em relação a isso. Em breve, vamos lançar um pacote de ações de estímulo à instalação de empresas em Londrina, envolvendo áreas para este fim.

Será um novo Plano de Desenvolvimento Industrial (PDI)?
Não exatamente. O PDI é estratégico. E esse é operacional. São ações que criam condições para se cumprir o planejamento estratégico. Temos neste momento várias plantas industriais que estão em construção em Londrina.

São empresas que já estão aqui. Não tem nenhuma grande novidade, não é?
Mas esse é um aspecto muito importante. Entendemos que a indústria local é nossa maior força econômica. O polo industrial local pode se expandir muito. Você vê a Cooperativa Integrada. Ela poderia expandir em outras 30 cidades onde tem sede, mas escolheu Londrina (para construir nova fábrica de ração). Isso é muito importante. Imaginar que vamos fazer diferença no processo de industrialização, trazendo uma ou duas grandes empresas, é subestimar a capacidade das nossas indústrias. Além disso, devido à questão logística da cidade, a chance de trazermos grandes indústrias é limitada. Mesmo assim, a gente trabalha bastante para atraí-las para cá.

Os indicadores de Londrina são muito ruins, seja o PIB (Produto Interno Bruto), o PIB per capita, a geração de empregos, a arrecadação de ICMS...
Londrina se carateriza por ser o centro de uma região metropolitana. Não é uma cidade isolada. É o centro de uma região metropolitana de 1,1 milhão de habitantes. Londrina é prestadora e fornecedora de infraestrutura e serviço para todas as cidades do entorno. É, por isso, que a nossa construção civil, comércio e serviços têm crescimento brilhante.
Analisar Londrina isoladamente da região metropolitana distorce a realidade, a capacidade de consumo, e a capacidade de desenvolvimento e de qualidade de vida. O parque industrial de Arapongas, por exemplo, está diretamente relacionado com Londrina. Toda a movimentação aeroportuária de lá é feita aqui. Grande parte da riqueza gerada em Arapongas é investida em Londrina. Londrina tem um desenvolvimento de 79 anos que não encontra similaridade nenhuma no mundo.

Mas a cidade deu uma parada, o senhor não concorda?
Sim, e eu vinculo isso à saturação do diferencial logístico que tínhamos no passado, uma solução logística muito particular, que era a ferrovia. Tinha uma estrada de ferro que drenava a produção e trazia para cá insumos de forma muito competitiva. Poucas regiões no Brasil tinham essa condição. Mas isso chegou ao nível da saturação. E veio a concessão das rodovias (em 1998) e o custo do pedágio nos ilhou. Londrina perdeu competitividade no transporte de insumos e no escoamento de produtos por via rodoviária.
Temos que ter esse entendimento para focar nossas ações em indústrias que possam de fato prosperar independentemente desta condição. Por isso, a indústria da TI (Tecnologia da Informação) floresce em Londrina, porque, nesta área, a infovia é a solução. É por isso que a Atos, a NTT e a eWave (empresas multinacionais de TI) vieram para cá.
Não podemos esquecer também a indústria de produtos médicos e odontológicos que se desenvolveu na cidade impulsionada pela academia (universidades), que é uma vertente que tem de receber todo o nosso apoio. E aquelas empresas que naturalmente se adaptaram aqui, que estão adaptadas à solução logística local da região. Elas devem ser incentivadas a prosperar e permanecer aqui.

A privatização das rodovias e o pedágio chegaram no final dos anos 90 juntamente com um escândalo politico que paralisou a cidade e culminou com a cassação do ex-prefeito Antonio Belinati. Tivemos uma outra crise politica 12 anos depois, desta vez com a cassação do ex-prefeito, Barbosa Neto. O senhor acha que essa questão logística foi mais determinante para o desaquecimento econômico de Londrina que a questão política?
Eu acho que (a política) teve impacto. Mas a gente não pode minimizar o impacto da solução logística de Londrina, que tem de ser considerada com muita atenção. Precisamos minimizar os impactos negativos e maximizar as vantagens comparativas.

Imagem ilustrativa da imagem Simplificar a legislação é desafio de Kireeff
| Foto: Marcos Zanutto
"Imaginar que vamos fazer diferença no processo de industrialização, trazendo uma ou duas grandes empresas, é subestimar a capacidade das nossas indústrias", afirma o prefeito Kireeff
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| Foto: Gustavo Carneiro
Por não depender de vias rodoviárias, a indústria de Tecnologia da Informação floresce em Londrina, na avaliação de Alexandre Kireeff
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