Símbolos do 'Eldorado' agora são raros
O arquiteto Antonio Carlos Zani, professor da Universidade Norte do Paraná (Unopar) e da UEL, foi um dos organizadores da recém-lançada coletânea de artigos ''Arquitetura e Cidade no Norte do Paraná'', que compila textos de estudiosos da UEL e da Universidade de São Paulo (USP). No seu artigo incluído no livro, Zani destaca: as construções de madeira são os itens mais característicos da história arquitetônica de Londrina.
''As casas (de madeira) são representações essenciais de nossa memória, que está se perdendo'', afirmou, em entrevista à Folha. A arquitetura em madeira acompanhou o passo histórico da cidade até meados dos anos 70. Nos primeiros anos do município, no período chamado ''Terra da Promissão'' (segundo divisão difundida pelo historiador José Miguel Arias Neto), as casas eram rústicas, simples, construídas de forma até precária, sob a idéia de que era preciso ocupar a região o mais rápido possível.
Após esta fase, que durou até os anos 40, chega o período do ''Eldorado'', quando Londrina se torna a potência mundial do café. Segundo Zani, a influência de imigrantes de outras partes do país e do mundo (notadamente Japão e Alemanha) faz com que haja maior cuidado na construção das residências. ''A preocupação com a ornamentação e a diferenciação se torna essencial. As casas ganham telhados com frontões, varandas, detalhes em madeira rendilhada, nichos para santas'', explica.
O mercado de arquitetura em madeira é alicerçado principalmente sobre o grande número de serrarias e carpinteiros, além da abundância de peroba rosa na região, o que barateava as edificações. Entretanto, quando as matas atingem o esgotamento, no final dos anos 60, a arquitetura em madeira passa a ter custos parecidos com os da construção em alvenaria. A derrocada do modelo é inevitável. Nos anos 80 e 90, grande parte das casas de madeira é demolida.
Hoje, segundo uma das pesquisas da Secretaria Municipal de Cultura, apenas 51 casas de madeira do quadrilátero central nobre da cidade (compreendido entre as avenidas Juscelino Kubitscheck e Higienópolis e a Rua Quintino Bocaiúva) permanecem em pé sem mudanças significativas em relação aos seus projetos originais. ''O ideal é que se preserve não casas isoladas, mas conjuntos de residências, para que o patrimônio seja conservado. Mas Londrina ainda está engatinhando na construção dessa consciência. Ainda se tem a mentalidade de que casa de madeira é coisa de pobre'', lamenta Zani.





