Durante muito tempo, Londrina foi um centro produtor de roupas. Das indústrias de confecção locais saíam – e ainda saem – peças com etiquetas das grandes marcas nacionais, que usam o esquema de facção para diminuir o custo de produção e aumentar a lucratividade. Nos últimos anos, entretanto, essa vocação da indústria paranaense – a segunda maior produtora de jeans do Brasil – vem ganhando outros contornos por aqui. O setor de confecção continua a todo vapor em Londrina, mas o produto mudou. Agora também se produz moda.
  Para entender a diferença entre roupa e moda, o conceito de identidade de marca é crucial. Só faz moda quem se apresenta ao mercado com traços bem definidos de estilo, público-alvo e outros valores menos tangíveis, como as associações emocionais que o produto desperta na mente do consumidor. A era da qualidade já foi superada. Quem não tem, ficou para trás. Em tempos de globalização, a moeda mais forte é a capacidade de ser reconhecido no
meio da multidão.
  A mudança – ainda em curso – no perfil das empresas de confecção de Londrina foi uma necessidade imposta pelo novo cenário econômico e comportamental estabelecido no início dos anos 90. ‘‘Com a abertura do mercado e a multiplicidade de produtos importados à disposição do brasileiro, a receita da cópia passou a não funcionar mais’’, lembra a designer Dorotéia Pires, especialista em estudos de Design de Moda e docente da Universidade Estadual de Londrina (UEL). A saída, portanto, foi profissionalizar o setor.
  Não por acaso, boa parte das marcas londrinenses que seguiu este caminho tem praticamente a mesma idade do curso de moda da UEL: 10 anos. O curso, que antes se chamava Estilismo em Moda, tem novo currículo e foi rebatizado como Design de Moda em 2004, de acordo com determinação do Ministério da Educação. E virou referência na área e teve 86 alunos premiados. ‘‘O meio da moda de São Paulo reconhece mais a UEL do
que a própria Londrina’’, diz.
  Mas esse traço da cultura local também está desaparecendo. E ‘‘santo de casa’’, que antes não fazia milagres, agora já é visto com bons olhos pelos ‘‘fiéis’’. ‘‘O londrinense tinha um certo tabu em relação ao que era produzido em Londrina. O cenário mudou com a profissionalização e a globalização. Hoje, quem é bom em Londrina, é
bom em qualquer lugar do mundo’’, analisa o pioneiro Nélio Pinheiro,
há 20 anos no mercado.
  A boa receptividade deve-se também à divulgação dos talentos locais por eventos como o Catuaí Collection e o Estação Fashion Londrina (EFL).
Ambos vêm contribuindo para o desenvolvimento da cultura de moda na cidade, assim como o ‘‘Projeto Milano’’, coordenado por Dorotéia Pires. Desde o ano 2000, mais de 70 profissionais e estudantes da região já participaram da viagem de duas semanas a Milão, capital internacional do Design (com opção de três dias em Paris). ‘‘Não tem nada a ver com aquela história de viajar para buscar referências de uma estação específica. A experiência sensibiliza, educa o olhar, cria referências e ensina como pesquisar moda atualmente’’, define a designer.
  Esse novo olhar é fundamental para enfrentar as exigências do mercado. Os desafios impostos pela democratização da informação são os maiores ‘‘calos’’ nos sapatos dos empresários do setor. ‘‘É preciso acertar o timing do negócio; roupa tem prazo de validade’’, dispara
a estilista Monica Negreiros.
  O ponto é realmente nevrálgico.
De acordo com o consultor Carlos Ferreirinha, especialista no mercado
de luxo, a questão não é estar à frente
do mercado, mas conseguir acompanhá-lo. Ganha quem for
rápido o suficiente para traduzir, na
hora certa e com personalidade própria, as vontades do consumidor, que está mais novidadeiro
do que nunca.

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