Siate transita na linha entre a vida e a morte
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sábado, 15 de maio de 2004
Fábio Galão<br>Reportagem Local 
São 4h30 da madrugada de um sábado. Um repórter e um fotógrafo da Folha tinham passado as oito horas e quinze minutos anteriores acompanhando uma noite de trabalho da equipe do Sistema Integrado de Atendimento ao Trauma em Emergência (Siate) do posto central de Londrina. O tenente Wilson Oliveira Paulino, oficial de área da noite, se despede: ''Já vão? Bem, vocês não tiveram muita sorte. A noite foi tranquila''.
Como ''tranquila'', ele define uma noite em que ocorreram dois acidentes de trânsito, um deles com perda total de um carro numa das avenidas mais movimentadas da cidade, um esfaqueamento, uma agressão contra duas pessoas numa tentativa de assalto - que, vítimas de coronhadas na cabeça, ficaram banhadas em sangue - e um acidente em que uma idosa de 92 anos bateu a cabeça ao escorregar no banheiro. ''É, tá tranquilo. Na noite de sexta pra sábado, tem sempre umas oito ocorrências. Já teve noite em que atendemos 15'', faz coro o soldado Givaldo Santana, 36 anos, um dos socorristas de plantão.
Esse não é mesmo um emprego qualquer. O que leva alguém a escolher uma carreira em que se passa noites atendendo pessoas feridas, em tal quantidade que oito horas em que são registradas cinco ocorrências podem ser consideradas ''sossegadas''? Definitivamente, não é o dinheiro. A diferença salarial entre um bombeiro sem curso do Siate e um socorrista é um extra de apenas 15% sobre o soldo - o que, segundo Paulino, para um soldado iniciante representa aproximadamente R$ 70 dentro de um salário total de cerca de R$ 1.000.
Para chegar ao status de socorrista, é preciso passar por um treinamento de 600 horas, onde se aprendem nuances de atendimentos médicos emergenciais como imobilização de membros fraturados e reanimação. É um curso tão puxado que o índice de reprovação passa dos 25%. O turno de trabalho é de 24 horas (com folga posterior de 48 horas) estressantes, nas quais constantemente se lida com casos escabrosos. Vale a pena?
''Vale. A gente até se sente mais relaxado do que os bombeiros que não são socorristas, porque eles ficam na tensão, esperando para apagar um incêndio, fazer um salvamento, um resgate, ocorrências mais difíceis de acontecer. A gente tem mais trabalho, então fica mais sossegado'', diz Santana. Bombeiro há 17 anos, socorrista há sete, o soldado conta que seu sonho de infância era ser piloto de avião.
Quando ele deixou o Exército, aos 19 anos, prestou três concursos públicos. Passou em todos e optou pelo Corpo de Bombeiros. Conta que percebeu pela primeira vez os dissabores da função de socorrista logo numa das primeiras ocorrências que atendeu. ''Numa briga, a barriga de uma mulher tinha sido cortada de um lado a outro com uma faca. Quando fomos atendê-la, ela estava segurando as próprias vísceras'', lembra Santana.
Nessa rotina imprevisível, sobram histórias que soam até engraçadas contadas hoje, mas que na hora não têm nada de divertidas. ''Uma vez, teve um acidente entre um ônibus e uma moto, no qual uma pessoa sofreu traumatismo crânio-encefálico. Nós a levamos para a ambulância e, por uma reação natural do organismo, a pessoa começou a tremer. Nós ficamos segurando a vítima, uma porta lateral estava entreaberta e o povo que via tudo do lado de fora achou que a gente estava batendo na pessoa. Começaram a empurrar a ambulância dos dois lados, furiosos. Precisou vir o médico, sedar a vítima e explicar o que a gente estava fazendo'', relata Santana.
O médico Gustavo Queiroz, que atende no plantão do Siate, se lembra de pelo menos mais uma história com contornos trágicos/inusitados. ''Certa vez, um menino tinha se afogado numa área nos fundos de um conjunto na Zona Norte. Atendemos a ocorrência e vimos que o jovem já estava morto. Só que um irmão dele apontou uma arma na nossa direção e disse que era pra gente socorrer o menino de qualquer jeito. Tivemos que levar o corpo embora, fingindo que ainda estávamos prestando atendimento''.


