SEXUALIDADE - Palavra: a maior conquista feminina
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sábado, 05 de abril de 2008
Ciça Vallerio<br>Agência Estado 
São Paulo - Curiosamente, uma das principais conquistas femininas das últimas décadas, tratando-se de sexualidade, é a palavra. Hoje, elas podem falar de seus desejos, frustrações, emoções, problemas e dúvidas. Têm a liberdade de expor seus sentimentos - os quais, para a mulher, estão intrinsecamente ligados ao sexo. Aliás, faz tempo que o prazer sexual - ou a falta dele - passou a fazer parte da roda de conversas femininas.
''A mulher se calava por se culpar pela falta de prazer'', avalia a ginecologista e obstetra Albertina Takiuti, especialista em saúde feminina. ''Com o fim do pacto do silêncio, as dúvidas se tornaram coletivas e, portanto, reivindicatórias. Em vez de achar que tinha um problema grave, porque o marido a acusava de ser fria, ela começou a questionar se sua falta de prazer estava associada a alguma dificuldade dela ou do parceiro.''
Com as conquistas profissionais em plena ascensão, as mulheres agora lutam por mais qualidade e prazer na cama. Quando a psiquiatra Carmita Abdo fundou o Projeto Sexualidade (ProSex) do Instituto de Psiquiatria do HC, no início da década de 1990, para cada sete homens que procuravam tratamento de disfunção sexual, apenas uma mulher tomava essa atitude.
Hoje, quase 20 anos depois, para cada dois homens, uma mulher recorre ao serviço do ProSex. A mudança é comemorada com entusiasmo pela médica: ''Nos vários campos da saúde, sempre há mais mulheres do que homens procurando tratamento. Mas, com relação ao sexo, eles - sempre preocupados com o desempenho - eram os que mais buscavam orientação. Não é à toa que surgiram mais medicamentos específicos para eles do que para elas.'', diz.
''Atualmente, atendemos predominantemente homens entre 40 e 50 anos, enquanto as mulheres estão na faixa dos 20 e 30 anos. Por serem mais novas, têm menos restrições e constrangimento, são informadas e querem usufruir melhor do sexo.''
Segundo a especialista, disfunção erétil e ejaculação precoce são os grandes tormentos dos homens que procuram tratamento. Já mulheres acima de 45, na maioria, reclamam da falta de desejo, sobretudo com a chegada do climatério, que prenuncia a menopausa. As mais novas buscam ajuda por sentirem dificuldade de atingir o orgasmo.
Pesquisa coordenada por Carmita, intitulada ''O Estudo da Vida Sexual do Brasileiro'', aponta que 26,2% das mulheres têm esse problema, que é mais acentuado entre as mais jovens, até os 25 anos, e entre as que têm mais de 61 anos.
A repressão sexual à qual muitas foram submetidas prejudica o prazer feminino. Mas a obsessão das mulheres pelo orgasmo também pode atrapalhar. Entre as entrevistadas na pesquisa, 32,5% iniciaram-se sexualmente preocupadas em atingir o clímax. Quando isso ocorre, deixam de aproveitar outros momentos do sexo. Porém, Carmita vem acompanhando um número significativo de mulheres que, embora procure tratamento, já se desvencilhou dessa obrigação.
Mais: em vez de se culparem, elas começam a questionar se a falta de orgasmo não é consequência da inabilidade masculina. Alguns dados podem confirmar essa hipótese. De acordo com o estudo do ProSex, 45% dos homens brasileiros não estão totalmente satisfeitos com sua capacidade de ereção, e 26% andam insatisfeitos com o controle da ejaculação. Enfim, poucos lidam com a sexualidade de maneira tranquila.
''Os números mostram que o homem não consegue se desenvolver bem no sexo'', observa Carmita. ''Não por egoísmo, como se acredita, mas porque ele está tão preocupado com o próprio desempenho que acaba não dando atenção à parceira.''


