As manifestações de sexualidade e o interesse das crianças pelo tema deixam muitos pais de cabelo em pé. Mesmo os mais moderninhos sentem-se constrangidos diante de cenas inusitadas protagonizadas por seus filhos, que vão desde a manipulação dos seus genitais a jogos sexuais com amiguinhos.
Em tais situações, a repressão é totalmente execrada por especialistas, como a psicóloga Ana Cláudia Bortolozzi Maia, professora da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Educação e Desenvolvimento Sexual. ''Punir e tirar da atividade e do ambiente em que a criança se encontra é inadequado, pois ela pode entender que o prazer que vem do seu corpo é proibido, sujo e, assim, pode-se causar danos à sua futura vida sexual.''
Mas como encarar as perguntas e situações que surgem desde os primeiros anos de vida? Não há regras, segundo Ana Cláudia, que também dá assessoria a escolas, além de palestras sobre o tema. Tudo depende dos valores, religião e cultura da família. O importante é não ser omisso e orientar os pequenos.
Os pais precisam entender que a descoberta infantil do corpo como fonte de prazer é importante para o desenvolvimento saudável da sexualidade. ''Muitos, no entanto, confundem isso com pornografia'', adverte Ana Cláudia, que é mãe de Bruna, de 5 anos. ''As manifestações sexuais das crianças não têm conotação erótica, o que, aliás, faz parte apenas da cabeça do adulto.''
A gerente bancária Sílvia Kerr encara com naturalidade o assunto com seus dois filhos - Filipe, de 16 anos, e Fernando, de 12 -, até mesmo quando pegou o mais novo no quarto se masturbando com um amiguinho no beliche, cada um numa cama. ''Simplesmente fechei a porta sem que percebessem a minha presença'', conta. ''Não há necessidade de repreender, porque isso faz parte do desenvolvimento infantil.''
Realmente, Sílvia não precisava se desesperar com a cena do quarto. Jogos sexuais surgem, geralmente, entre 4 e 7 anos. Para a psicóloga Ana Cláudia, esse tipo de brincadeira entre crianças do mesmo sexo é normal e, ao contrário do que se pensa, não estimula a homossexualidade.
''Depois que os pequenos - entre 3 e 6 anos - aprendem que o toque dá prazer , vão perceber que há diferenças biológicas entre meninos e meninas e que essa sensação prazerosa pode ser compartilhada'', observa Ana Cláudia. Por volta dos 8 anos, no entanto, a sexualidade fica em segundo plano.
Não são apenas os pais que precisam se preparar para encarar essas situações. Na escola, os educadores não devem se desesperar na hora de tratar do assunto, mas devem ter o cuidado de observar quando algumas atitudes deixam de ser naturais e acusam problemas emocionais.
''Algumas crianças passam a usar a masturbação com frequência, por exemplo, como descarga de tensão, causada por ansiedade, pressão, medo, etc.'', alerta a diretora pedagógica da Prima Escola Montessori, Edimara Lima. Por isso, o olhar atento dos educadores é fundamental, assim como a capacidade de orientar pais desnorteados. Segundo Edmara, a busca por informações pode, sim, vir da escola, por meio até de seminários promovidos pela direção.
Para a pedagoga, falar de sexo com a criança pode ser tão perturbador quanto se deparar com cenas de masturbação e brincadeirinhas sexuais dos filhos. Na hora de explicar algo para eles, se os pais não se sentirem seguros, o melhor a fazer é admitir à criança essa dificuldade. ''Devem pedir orientação para alguém apropriado e de confiança'', avisa Edimara. ''Porque se a criança não sacia sua curiosidade dentro de casa, fará com pessoas não indicadas.''

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