Sexo ocorre cada vez mais cedo entre os adolescentes
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sábado, 06 de agosto de 2005
Alan Maschio<br> Reportagem Local 
O início do século 21 pode ficar marcado como o período em que a sociedade assistiu à morte da chavão ''perda da inocência''. A expressão, que sempre foi usada como referência à iniciação sexual dos jovens, perde força há pelo menos 20 anos, tempo em que se constatou que os adolescentes estão ''virando adultos'' cada vez mais cedo. Casos extremos de crianças de 10, 11 e 12 anos, que já frequentam postos de saúde em busca de exames pré-natal, exemplificam e dão vida à ousadia que toma conta da juventude.
Hoje, os próprios adolescentes avisam os pais para a necessidade de modernização de pensamentos: a proibição seja ela moral, religiosa ou social não se sobrepõe à curiosidade quanto ao sexo e, quando eles decidirem, não importa quem os alerte sobre os eventuais riscos da primeira transa, eles a terão. A proibição, em alguns casos, no ponto de vista dos jovens só vai impedi-los de se prevenir contra uma gravidez indesejada ou de doenças sexualmente transmissíveis.
Um pequeno debate realizado pela Folha com jovens, participantes de um encontro de estudantes em Londrina na semana passada, dá a idéia do que mudou e do que permaneceu intacto na forma que o adolescente encontra para se iniciar sexualmente. Os nomes dos adolescentes foram trocados para que a intimidade de cada um fosse preservada. Visitas a prostíbulos continuam sendo os presentes dados por pais aos filhos em aniversários de 15 anos, enquanto as meninas descobrem o sexo geralmente influenciadas pelas amigas ou persuadidas pelos namorados.
Tais casos, no entanto, não são maioria. Diversidade sempre foi uma das marcas da adolescência e no sexo não é diferente. De acordo com o hebiatra Walter Marcondes, presidente da Associação Brasileira de Adolescência (Asbra) e presidente eleito da Confederação Ibero-Americana de Adolescência, a média de idade em que os adolescentes estão iniciando a vida sexual é de 14 anos.
A avaliação do hebiatra é reforçada com as idades reveladas pelos jovens participantes do debate. Felipe, 17 anos, perdeu a virgindade aos 14. Morador de Sertanópolis (40 km ao Norte de Londrina), ele conta que uma vizinha casada foi a ''felizarda''. Bianca, 14, transou pela primeira vez com o namorado aos 13. Patrícia, 15, Tailine, 15, Carla, 14, e Diego, 11, declararam-se virgens, com ressalvass. São virgens por opção e falta de oportunidade, apesar de saberem que os costumes religiosos que adotaram e que os próprios pais não consentiriam com a escolha pela perda da virgindade antes do casamento. Eles reforçam a avaliação manifestada por Marcondes.
''Quando os jovens decidem transar, eles vão fazer, não importa o que os proíba'', afirma o hebiatra, com base na experiência de quem coordena o atendimento a adolescentes na rede municipal de saúde de Londrina. A juventude carrega consigo as consequências de uma característica que pode ser, na maioria dos casos, traduzida em inexperiência. ''Nas conversas realizadas durante os atendimentos, 70% dos jovens contam sua iniciação sexual como uma experiência frustrante, causadora de dor e sem prazer'', diz Marcondes. ''É bom destacar que estas sensações são descritas em relações consensuais. Das meninas grávidas atendidas pelo sistema de saúde, a menor parte foi vítima de violência sexual'', completa.
Curiosidade misturada com juventude e timidez. O resultado é uma relação rápida, dolorosa e que em alguns casos até provoca machucados, em posições consideradas simples, como o famoso ''papai-mamãe'' e com prazer somente para o homem. ''O que pode ser explicado pela manifestação diferente da sexualidade entre homens e mulheres'', explica Marcondes. ''Num exercício realizado para que os jovens identificassem as partes do corpo que consideravam mais erógenas, os meninos participantes invariavelmente apontavam o pênis. As mulheres mostraram seios, cintura, pescoço, e depois a vagina e as nádegas'', detalha.
Variações como sexo oral ou anal, por exemplo, são totalmente descartadas pelos jovens, principalmente pelas mulheres, segundo o médico. ''É simplesmente nojento. Quem faz isso está se rebaixando, sei lá o que o cara pode pensar de uma menina que faz sexo anal com ele'', opina Bianca. ''É um tipo de travamento que só dificulta o alcance do prazer'', avalia o hebiatra.
Bianca, porém, não teve o respaldo dos demais adolescentes do grupo. Mesmo considerando relações anais e orais ''nojentas'', jovens como a pequena Carla uma das meninas que se declarou virgem reconhecem que podem mudar de opinião com o tempo. ''Quando eu era criança achava até o beijo nojento, mas agora já mudei de opinião. Ainda acho que sexo anal pode ser horrível, mas de repente, quando ficar mais velha, isso pode mudar'', admite.
O tempo realmente é um grande fator de influência da forma como interpretamos as mudanças de comportamento. Comportamentos que hoje são socialmente aceitáveis na adolescência, como o contato breve com o álcool, eram inadmissíveis há não muito tempo. A passagem dos anos, no entanto, não deu maturidade aos jovens quanto ao sexo. É o que se pode concluir da declaração de Marcondes, quando a ele é pedida uma avaliação sobre o alto grau de ocorrência de relações sexuais frustradas entre adolescentes. ''Como já disse, 70% têm algum tipo de decepção com a primeira transa. Se houve decepção, acredito que houve erro na escolha do momento''.


