Pergunte aos mais velhos: Você conversava sobre sexo com sua família? Para a grande maioria, a resposta será não. Assunto proibido nas mesas de conversa até alguns anos atrás, o sexo vem sendo discutido de forma cada vez mais aberta entre adultos e jovens, quebrando tabus e servindo como arma na prevenção de doenças transmissíveis.
Para especialistas da área, a mídia tem exercido papel fundamental nesta abertura de diálogo, informando e conscientizando as pessoas, além de levar o assunto para dentro das casas. Um exemplo é a coluna Sexo & Comportamento, que circula de terça à sábado na FOLHA. Nos mais de 250 artigos publicados ao longo do primeiro ano de existência da seção, foram tratados temas direcionados a todas as faixas etárias e diferentes públicos. Alguns artigos já foram reproduzidos por órgãos como o Ministério da Saúde, Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e Sociedade Brasileira de Cardiologia.
São 20 colaboradores, entre ginecologistas, psicólogos, urologistas, cirurgiões vasculares e educadores sexuais. Um dos autores dos artigos é o cirurgião vascular Márcio Dantas de Menezes, presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Sexual. Ele afirma que a mídia levanta a discussão sobre o assunto, e a polêmica consegue chamar a atenção no convívio familiar. ''Os textos às vezes chocam quem está lendo, mas provocam a necessidade de um entendimento maior sobre sexo. O jornal é um meio democrático, lido por toda a família e serve como ferramenta para debater o assunto dentro de casa''.
Estar informado, no entanto, não é suficiente. Segundo Dantas, é preciso colocar em prática as orientações de prevenção e o comportamento envolvendo questões sexuais. ''A sociedade está bem informada, mas ainda falta atitude. Temos um grau de homofobia muito alto, registramos um grande número de casos de gravidez na adolescência e doenças sexualmente transmissíveis'', observa.
Para o urologista Juliano Plastina, a educação sexual sempre foi cercada de folclore, mitos que estão sendo esclarecidos graças à maior quantidade de informações sobre o tema. ''Todo mundo aprendia sexo com o que ouvia dos outros, e acabava assimilando essas inverdades. No tempo dos nossos avós, ninguém falava sobre sexo. Era casar, fazer filhos e pronto. Hoje é tudo muito mais aberto, principalmente porque a informação está mais acessível''.
Mudança de comportamento - Além da quebra de alguns tabus, a mudança de comportamento das mulheres também contribuiu para a abertura das discussões sobre sexo. Ela passou a trabalhar fora de casa, conquistou autonomia e a chance de exigir mais do marido dentro da relação. ''A mulher sabe mais o que quer, está mais independente, o que consequentemente propicia uma relação mais saudável. Se antes ela tinha apenas a função de servir o marido, hoje ela é companheira'', explica o ginecologista Marcelo Mendonça.
A psicóloga Denise Tinoco diz que a comunicação entre o casal é fundamental para a mulher preservar suas vontades na relação, evitando se inferiorizar diante do homem. ''Elas não podem ter vergonha, se submeterem e acharem que o problema é com elas. Se não conversarem com o parceiro, não vão saber as vontades e dificuldades dele, como poder ajudar. O hábito de trocar informações é muito positivo''.
Novelas na contramão - Ao mesmo tempo em que a mídia colabora para a divulgação de informações sobre sexo, também atua na contramão ao dar maus exemplos, na opinião da diretora do Núcleo de Estudos de Sexologia de Curitiba, Marilene Vargas. Ela elege a novela como a principal vilã nessa má educação sexual, graças à inversão de valores nas cenas exibidas. ''A novela enaltece as relações por interesse, onde tudo é válido. O sexo vira uma moeda capital, e as pessoas incorporam isso na vida real''.
Segundo Marilene, as novelas são responsáveis pela mudança de comportamento de uma geração que dá cada vez menos valor às relações amorosas e ao companheirismo. ''Os jovens vão para as baladas e nem perguntam o nome das pessoas com quem se envolvem, é uma relação extremamente superficial. Eles criam uma espécie de 'campeonato do sexo', onde homens e mulheres competem em vez de se complementar'', lamenta.

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