SEU AMBIENTE, NOSSO AMBIENTE O senhor dos mapas
PUBLICAÇÃO
sábado, 29 de setembro de 2007
Fábio Cavazotti<br>Reportagem Local 
Quem observar com atenção os mapas oficiais de Londrina vai perceber, no canto inferior, a inscrição J.A. Capelo. Ela corresponde ao nome de Joaquim Augusto Capelo, um português nascido em 1937, criado no Rio Grande do Sul e que foi o responsável, a partir da década de 60, pela produção de nove entre dez mapas de Londrina - urbanos, rurais, hídricos, de topografia, localização de lotes, entre outros. Sem exagero, nem modéstia, ele pode ser descrito como o 'senhor dos mapas de Londrina'.
Com jeito simples, fala mansa e extrema cortesia, Capelo recebeu a reportagem da FOLHA em sua casa na última quinta-feira. Mesmo aposentado pela prefeitura, Capelo mantém uma infinidade de mapas em seu escritório e não pára: atualmente presta serviços para o Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Londrina (Ippul), além de encomendas particulares. Quando observa os mapas, é possível perceber que sua mente consegue 'ler', naquele emaranhado de linhas e marcações, o perfil dos morros, a divisão dos lotes, o caminhos das águas e a imensidão de terra.
Descoberta de território - Conversar com o veterano cartógrafo é passear pelo histórico da 'descoberta' do território urbano e rural de Londrina e região. ''Cheguei em 1965, tinha uma vaga na prefeitura e me interessei. No Rio Grande do Sul, já mexia com isso planejando estradas de ferro para o Exército. Lá era muito bom, eu me metia no meio do mato e ficava observando os pássaros'', conta, divertido. ''Aqui, no começo, havia mapas apenas da cidade, feitos pelo Exército e IBGE, mas com escala muito grande, de 1 cm para 100 m. Hoje temos até para 10 m. Da zona rural, quase não existia nada. Em um ano, fizemos o primeiro mapa oficial, incluindo todo o território''.
Nessa época, os mapas ainda não eram feitos com a fotometria - técnica que parte de fotos realizadas por avião para a confecção das cartas geográficas. Com isso, Capelo era obrigado a desenhar a partir das leis municipais que delimitavam os lotes, relatos de moradores e muitos cálculos matemáticos. ''Ia tentando fechar cada quinhão e cada gleba a partir dos lotes. Quando pegava a lei, dizia lá: esse lote vai do riacho tal até 300 m a leste do outro riacho. Então, eu ia fazendo tudo à mão, riscando e utilizando a técnica de cálculo que já conhecia. Com o tempo e com a garimpagem das informações, fomos colocando tudo em seu lugar''.
Longitude, latitude e batizados - O início da fotometria, em 1972, revolucionou a cartografia oficial de Londrina. ''Aí tudo mudou, você pegava as imagens e podia calcular, pela longitude e latitude, cada local. Com as fotos, a gente também começou a atualizar os mapas com mais frequência''.
Uma curiosidade do trabalho de Capelo é que, diante de riachos e córregos ainda sem nome, ele os batizava utilizando alguma referência regional. ''Dei o nome dos córregos da Mata (próximo à UEL), Carambeí (no Jardim Califórnia), Cacique (perto da Cia. Cacique de Café Solúvel), dentre outros'', relembra. ''Para dar o nome, buscava alguma coisa no lugar mesmo. Lá no ribeirão Lindóia (zona norte) precisei dar o nome para um riacho quando fizeram o loteamento. Quis salvar uma pequena mina d'água que nascia no topo, então reservamos a área e demos o nome de arroio do Topo''.
Atualmente, o cartógrafo conta que se diverte ao chegar a diversas regiões da cidade e constatar que as pessoas ainda utilizam a denominação original dos mapas.
Fundos de vale e beira de rio - Outro cuidado que Capelo revela se baseia no respeito ao meio ambiente. De acordo com ele, a característica peculiar de Londrina de ter preservado diversos fundos de vale foi fruto de uma luta contínua. ''Os loteadores faziam muita pressão para utilizar os terrenos até a beira dos rios. Eu, sempre que planejava os loteamentos, deixava a área de mata intacta, muitas vezes maior que o obrigatório. Os empresários reclamavam, mas a gente tinha um diretor que fazia questão de manter os vales. Foi difícil segurar, mas conseguimos na maior parte da cidade'', contou. ''Quando a gente ia planejar uma via urbana também tomava cuidado com as matas. Sempre que tinha uma reserva, tentava contornar para não estragar''.
Ao longo de sua carreira na prefeitura - a aposentadoria veio há poucos anos, Capelo passou por inúmeras administrações municipais. ''Comecei no tempo do Hosken de Novaes. Era um homem quieto, mas de muita concentração. Também me lembro bem do Wilson Moreira, que era engenheiro e entendia tudo o que a gente falava. Com ele, tinha de estar bem preparado''.


