Partindo de uma idéia simples, mas muito original, a Embrapa Soja, em Londrina, homenageia funcionários com plantio de bosque

Fábio Cavazotti
Reportagem Local
Uma idéia simples e original, que associa benefícios para o ser humano e o meio ambiente, está levando à criação de um diversificado e aprazível bosque na sede da Embrapa Soja, na zona rural de Londrina. Os 10 mil m2 de terreno reservados para o plantio das mudas, há quatro anos, já conta com 135 diferentes espécies de árvores nativas brasileiras (do Rio Grande do Sul ao Amazonas) e 21 exóticas (originárias de outros países). No total, são 522 árvores plantadas pelos funcionários e ex-funcionários com pelo menos dois anos de casa. As árvores ainda são novas – o tamanho varia de acordo com o crescimento de cada variedade – e cada uma tem sua plaquinha, indicando a espécie e o nome do ‘‘padrinho’’.
  ‘‘A idéia foi homenagear o pessoal da empresa com algo que fizesse bem ao ambiente também. Como cada um tem de cuidar da sua árvore, acabou aproximando as pessoas. Hoje, tem gente que vem me mostrar sementes que descobriram, conversar sobre árvores, foi uma idéia excelente’’, conta o pesquisador Antônio Garcia, de 61 – uma espécie de ‘síndico’ do bosque. O projeto foi idealizado pela chefe-geral da Embrapa Soja, Vânia Castiglioni.
  ‘‘A Vânia pediu para eu ajudar porque sabe que gosto muito de árvores. Para mim foi um prazer, vir aqui é minha terapia. O que me pesa um pouco é que falta tempo para ter todo o cuidado que deveria’’, diz. ‘‘Todo ano a gente faz um café da manhã, no aniversário do bosque. Vem todo mundo, eles obsevam as árvores, comentam: ‘Ah, a árvore do fulano faleceu’; ‘Pô, aquele outro fulano que já saiu, a árvore ainda está lᒠ– aí lembram da pessoa. Por isso, demos o nome de bosque Verde Vivo, porque as árvores são vivas e as pessoas que passaram por aqui também, por meio delas’’.
Perobas andantes
Para Antônio Garcia – que define sua função na Embrapa como uma espécie de ‘‘clínico geral da soja’’ – a paixão pelas árvores surgiu logo cedo. ‘‘Quando era pequeno, olhava uma árvore com o maior respeito, sentia que era ‘algo’ muito grande. Ficava vendo aquelas perobas enormes, e como as nuvens se movimentam, parece que elas é que estavam andando. Achava muito bonito’’.
  No bosque da Embrapa, o exemplar da peroba rosa – comum no norte do Paraná antes da colonização – é um dos mais vistosos. ‘‘Essa aqui o cara cuidou tanto que está bem maior que as irmãs plantadas no mesmo período’’, indica Garcia.
  O pesquisador explica que a madeira da peroba foi uma das mais utilizadas para construção civil nas primeiras décadas da história de Londrina e região. ‘‘É a madeira mais importante aqui, a grande maioria de nós teve pais, avós ou bisavós que moraram em casa feita de peroba. Era a madeira principal para madeiramento bruto das casas e das tulhas de caf钒.
  Outras espécies presentes no bosque, que chamam a atenção de Garcia, são o jequitibá rosa – ‘‘chega a 50 metros na região de origem, vi uma matéria de uma árvore que chegou a 3 mil anos’’; mamãozinho do mato – ‘‘é da mesma família do que nós comemos e uma das poucas espécies nativas de mamão, ele produz um leite que pode até queimar a pele se não tomar cuidado’’; jacarandá da bahia – ‘‘tem uma madeira valiosíssima, muito utilizada antigamente, e está crescendo rápido aqui’’; e pau brasil - ‘‘raramente chega a produzir semente na nossa região, acho que não poliniza por causa do frio’’.
  O pesquisador conta que o bosque já atrai diversas espécies de pássaros, inclusive para reprodução. Garcia acredita que a iniciativa pode ser utilizada por outras empresas. ‘‘Traria um benefício imenso para o meio ambiente, além de ser uma homenagem quase eterna para as pessoas’’.
Da integração ao descanso
A chefe-geral da Embrapa Soja, Vânia Castiglioni, confirma que o bosque só trouxe benefícios para a empresa. ‘‘Vai da integração das pessoas, do bem-estar, à área de descanso que estamos criando. No futuro, vai servir para um repouso, por exemplo, vamos colocar bancos’’.
  Ela conta que teve a idéia de criar o bosque quando um colega foi homenageado por uma cooperativa. ‘‘Pediram para ele plantar uma árvore na solenidade. Na volta para Londrina vim pensando nisso, passei a refletir sobre a natureza, sobre esse nosso mundo, e comecei a pensar que seria interessante se cada um plantasse uma árvore’’, contou. Rapidamente a idéia foi colocada em prática.
  ‘‘O dia do plantio foi emocionante, alguns funcionários trouxeram a família, vieram parentes de funcionários falecidos. Hoje, além do lado humano, o bosque ajudou na conscientização ambiental de todos’’.

Impressões de quem cuida e usufrui

‘‘Tenho uma árvore sim, só não pergunta o nome que não lembro (risos). Quando ela era pequena precisava ter mais cuidado, mas agora já cresceu bastante. Achei a idéia ótima, além de ajudar o meio ambiente, desperta nosso interesse. Agora, tem uns que cuidam mais e outros que cuidam menos (risos)’’
Roberto Aparecido Aguiar, auxiliar de operações (Jardinagem)

‘‘A minha já tem uns 2 metros, está bem bonita. A idéia do bosque foi muito boa, eu acho que ajuda a despertar para essa parte ambiental. Já tem vários tipos de árvores que foram plantadas, cada funcionário cuida da sua. A Embrapa é a única empresa que eu conheço que tem isso, outros lugares deveriam fazer também’’
Dilson Lima,
encanador

‘‘Tenho duas, uma que plantei e outra que ‘adotei’ (risos), Não vou lá tanto quanto devia, mas sempre que posso eu cuido. A idéia do bosque foi brilhante, ela não vê apenas o presente, mas o futuro. O cuidado com a árvore, vê-las crescerem. É gratificante não só para os funcionários, mas para o meio ambiente também’’
Beatriz Correa Ferreira, pesquisadora

‘‘Tenho um cedro e estou muito feliz com ele. A muda tinha 22cm, agora está bem grande. Quando plantei, trouxe meu filho que tinha acabado de nascer, tirei uma foto dele ao lado da árvore e trago todo ano de novo, ele vai pegando amor pela coisa. Várias vezes, na hora do almoço, vou passear no bosque.
Foi uma excelente idéia’’
Moisés de Aquino,
analista laboratorial

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