SEU AMBIENTE, NOSSO AMBIENTE - População pobre vai sofrer mais com o aquecimento global
PUBLICAÇÃO
domingo, 02 de dezembro de 2007
Fábio Cavazotti<br>De Florianópolis 
O processo de aquecimento global, que deve transformar o clima da Terra nas próximas décadas, atingirá especialmente as populações mais pobres - além da própria natureza. De acordo com o vice-presidente do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas da ONU (IPCC), Mohan Munasinghe, o risco de secas, enchentes e incêndios decorrentes do processo de aquecimento global deve prejudicar de forma significativa a produção agrícola e elevar os preços dos alimentos.
O IPCC foi o vencedor do Prêmio Nobel da Paz 2007, juntamente com o ex-vice presidente dos Estados Unidos, Al Gore, que produziu o documentário ''Verdades Inconvenientes''. O relatório do painel, que contou com a colaboração de 2.500 cientistas de todo o mundo, é considerado o estudo mais completo sobre as mudanças climáticas que estão ocorrendo no mundo em razão da emissão de CO2 (gás carbônico) resultante da queima de combustíveis fósseis - que tem base no petróleo. Mohan Munasinghe foi uma das ''estrelas'' do Fórum Internacional de Energias Renováveis e Sustentabilidade, que reuniu 130 palestrantes de nove países entre os dias 28 e 30 de novembro, em Florianópolis.
''O impacto do aquecimento global vai ser maior nos países pobres e em desenvolvimento. Com alimentos mais caros, eles terão cada vez mais dificuldade'', disse. ''Os pobres também são pobres ambientalmente, vivem em locais degradados e estão mais sujeitos às mudanças climáticas. Nós (cientistas) estamos falando há anos que temos de ver a pobreza sob o ponto de vista do desenvolvimento sustentável''. Outro efeito perverso para as populações mais pobres é que terão menos possibilidade de fugir das catástrofes naturais que estão sendo previstas.
De acordo com Munasinghe, o desenvolvimento sustentável é um conceito que deve ser aplicado de acordo com as realidades de cada país, mas significa, de modo geral, uma forma de crescer economicamente que melhore a qualidade de vida de toda a população - social, cultural, econômica e ambientalmente. ''Não acredito que desenvolvimento e sustentabilidade se excluem. As dificuldades criam novas alternativas para inovações tecnológicas''.
O vice-presidente do IPCC considera que o Prêmio Nobel concedido ao trabalho sobre o aquecimento global deu ''credibilidade, reconhecimento e poder de convencimento'' aos cientistas. ''Atualmente, 99% da comunidade acadêmica reconhece o perigo''.
De acordo com ele, a população comum, em toda parte do mundo, também já está convencida dos problemas. ''A questão hoje está na classe política, que se preocupa mais com o próprio jogo do que com as evidências científicas. Felizmente, isso está melhorando, como mostra o novo primeiro-ministro australiano, que, ao contrário do antecessor, já anunciou que vai aderir às metas do Protocolo de Kioto''.
O relatório do IPCC indica que, somente nos últimos 30 anos, as emissões de carbono na atmosfera aumentaram em 70%. Desde a revolução industrial, a temperatura média do planeta passou de 14ºC para 14,6ºC. Munasinghe disse que não há consenso sobre qual o limite de temperatura suportável para o planeta. ''A União Européia vem colocando que um aumento de 2ºC seria insustentável''.
Brasil
O vice-presidente do IPCC elogiou as iniciativas brasileiras que visam produzir combustíveis mais limpos ambientalmente - como o etanol. De acordo com ele, ''a posição brasileira é responsável, tanto dos políticos, da comunidade científica e da população. Isso tem ajudado no convencimento de outros países.
No entanto, Mohan Munasinghe disse que, apesar dos benefícios dos combustíveis renováveis, os países não devem desprezar nenhum tipo de fonte para não pôr em risco o fornecimento de combustível. Ele acredita que a diversificação da matriz deveria ser uma meta mundial.
''Temos que pensar na segurança energética também. Se faltar combustível, haverá aumento de preço e prejuízos para os mais pobres. É importante conciliar o fornecimento e as modalidades de energia''.
No Brasil, ele crê que todas as opções devem ser utilizadas de forma combinada - inclusive o petróleo descoberto recentemente na Bacia de Santos e as alternativas nucleares.
(*) O repórter da FOLHA viajou a Florianópolis a convite da organização do evento


