SEU AMBIENTE, NOSSO AMBIENTE - Para virar o jogo a favor do futuro
PUBLICAÇÃO
sábado, 29 de setembro de 2007
Cristina AmorimAgência Estado 
O canadense Maurice Strong é cercado de histórias controversas: nascido pobre, fez sua ascensão social e econômica dentro da indústria do petróleo, de onde migrou para a Organização das Nações Unidas (ONU), na década de 1970, para se tornar o padrinho do ambientalismo. Foi mentor e secretário-geral da ECO-92, reunião de cúpula no Rio que, há 15 anos, colocou a questão ambiental na pauta política. Assumiu cargos importantes nas Nações Unidas e no Banco Mundial. Hoje, com 78 anos, mora na China, onde trabalha como consultor do governo e de empresas locais e multinacionais. A seguir, a entrevista concedida à reportagem.
Haverá um substituto do Protocolo de Kyoto, após 2012?
Os Estados Unidos e outros países estão tentando substituí-lo por um sistema voluntário, o que significa que eles não teriam de assumir nenhum compromisso. Se isso ocorrer, será um grande passo para trás.
Países em desenvolvimento, como China, Índia, África do Sul e Brasil, deveriam aceitar limites de emissão de gases-estufa?
Sim. Mas esses limites estariam diretamente ligados ao que países desenvolvidos fariam para reduzir suas próprias emissões. Não espere que os países em desenvolvimento assumam a liderança. Ela deve vir dos desenvolvidos, que criaram o problema.
A China, um dos maiores emissores de gases-estufa do mundo, pode aceitar metas mandatórias de controle das emissões?
Acho que a China está bastante propensa a isso. Mas ela espera que os países industrializados, que contribuíram mais para a escalada dos gases-estufa, tomem a dianteira. Não há razão para China, Índia e Brasil irem na frente. E acho que os chineses e outros concordariam não em cortar emissões, mas em reduzir a taxa de crescimento de suas emissões. É para isso que os países industrializados precisam abrir espaço.
Os países em desenvolvimento evocam com frequência o princípio da responsabilidade histórica: quem começou o problema que dê início ao processo de solução. Mas história não é apenas passado e presente, mas também futuro. Por esse aspecto, China, Índia e Brasil não deveriam assumir mais responsabilidades?
Concordo. Cheguei a propor que os governos tivessem um Ministério do Futuro. Sempre que houvesse uma discussão sobre economia, deveria haver alguém presente avaliando os impactos. O que isso fará com nossas crianças? E com a próxima geração? Alguém deveria estar sentado no gabinete com a responsabilidade de pensar dessa maneira, de forma que as ações que tomamos hoje ajudem a produzir um futuro melhor para aqueles que se seguem.
O que aconteceu com essa idéia?
Ninguém a adotou. Estou desapontado. Muito do que eu queria ter visto não aconteceu. A boa notícia é que há algumas coisas acontecendo que mostram que é possível mudar. Há a experiência do Japão, que era muito poluído, fez com que a indústria se tornasse mais eficiente e reduziu os danos. A eficiência é a melhor maneira de lidar com problemas ambientais.
Então a responsabilidade é das pessoas comuns?
Hoje, as pessoas estão percebendo que existe um problema e cada vez mais pressão é feita sobre os governos. Enquanto houver uma pequena chance de sermos bem-sucedidos, precisamos continuar, mesmo sendo decepcionante e frustrante ver que os governos não estão se movendo.
É o caso da resposta ao aquecimento global?
Sim. Os riscos aumentam rapidamente e, ainda assim, as ações não acompanham esse ritmo. Neste momento, não estamos em um curso sustentável. E precisamos estar. Precisamos continuar trabalhando, porque é possível mudar. Temos a tecnologia e o conhecimento. Claro que sempre podemos saber mais, mas realmente é uma questão de vontade política, o que só vai acontecer quando as pessoas realmente perceberem que o futuro de suas crianças e de seus países está em jogo.


