Se o mundo está passando por um processo de aquecimento global, por que tivemos um frio tão intenso neste inverno? Pergunta comum, mas que tem resposta no aumento gradativo da temperatura média do planeta. O aquecimento não significa que a Terra terá somente picos de calor, mas que vamos conviver com vários fenômenos: desertificação, elevação do nível do mar provocando a invasão de áreas litorâneas, verões muito fortes em áreas de clima temperado, como os que ocorrem na Europa Ocidental, causando um grande número de mortes, sobretudo de pessoas mais idosas; vendavais, furacões, entre outros.
Só para ter idéia da ''maluquice'' que está acontecendo no clima por causa do aquecimento, os meses de junho e julho de 2007 são bons exemplos: na região de Londrina o mês de julho foi recorde em chuva, se comparado com a média histórica dos últimos 35 anos registrada pelo Instituto de Agronomia do Paraná (Iapar). Foram 221,9 milímetros de chuva. A média histórica do mês é de 60 milímetros. As chuvas de julho, no entanto, não foram bem distribuídas e caíram durante só três dias. Em contrapartida, o mês de junho marcou 6,4 milímetros de chuva, contra a média histórica de 92 milímetros.
De difícil comprovação - Analisando as estatísticas mais antigas do Iapar, a geada de 1975 registrou 3,5 graus negativos. De lá para cá, só em 2000 fez bastante frio - 1,3 graus negativos. Este ano, o dia mais frio marcou nos termômetros 2,2 graus. Outras discrepâncias foram registradas nos períodos de verão. Em novembro de 1985 os termômetros do Iapar registraram 39,2 graus, maior calor dos últimos 35 anos. Em 2005, 20 anos depois, o dia mais quente registrou 37 graus. No ano passado o dia mais quente chegou a 36 graus, em janeiro.
As mudanças climáticas são fenômenos de difícil comprovação estatística a curto prazo, de acordo com o pesquisador chefe do setor de Agrometeorologia do Iapar, Paulo Caramori. Porém, o que se percebe é que, em escala global, regional ou local o clima terá extremos. ''A tendência é acentuar os ventos mais severos, chuvas mais fortes, secas prolongadas. A mudança da quantidade de energia, que está presente na atmosfera, estimula a formação de tempestades, ventos fortes, tornados e até furacões'', observa Caramori.
Segundo o pesquisador, na região o aquecimento já está ocorrendo, mas não se sabe a intensidade. O que se sabe, entretanto, é que a consequência do aumento da temperatura pode acelerar os ciclos de alguns insetos, como o Aedes Aegypti ou ainda agravar o problema de epidemias e fazer surgir novas doenças tropicais.
Temperatura e água - Coincidentemente, com o aumento da atividade agrícola nos últimos 30 anos, já se constata, no Paraná, aumento da temperatura mínima em cerca de 1,5 grau, segundo dados do Iapar. ''Quando existe a floresta, você tem um ambiente em equilíbrio. O calor não chega diretamente até o solo. Ele é inteceptado na copa da árvore, que retira o calor e o transporta de volta à atmosfera. E o ciclo da água também é mantido, a copa da árvore funciona como um anteparo das gotas da chuva. Essa água se infiltra lentamente na terra e vai para os mananciais subterrâneos alimentar as nascentes que vão para o rio'', explica Caramori.
A qualidade da água no futuro é outra preocupação. À medida que se tem ventos extremos e secas, o abastecimento de mananciais fica prejudicado sem dúvida. ''Temos observado que, com a retirada das florestas do Norte do Paraná, houve uma mudança drástica na cobertura do solo. Vivemos nas décadas de 60, 70 e 80 uma migração da cultura do café para as culturas anuais (soja, trigo), quando se expôs muito o solo descoberto. Isso provocou muito problema de erosão, assoreamento de nascentes, poluição, uso intensivo de agrotóxicos''.
Desse período para cá, o Iapar e a Emater começaram a atuar em pesquisas e orientar produtores rurais que, até então não adotavam práticas conservacionistas. ''A erosão era grande e muitos mananciais foram soterrados. Já tivemos um prejuízo significativo em perdas de mananciais e qualidade de água'', diz Caramori, lembrando que hoje existem legislação e práticas conservacionistas na agricultura para repor as matas florestais.

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