Morungaba(SP) - Arrastam-se pelo chão, picam, são perigosas, assustadoras até. Répteis, não são cobras, não! Cobra é nome certo de somente uma espécie, a King Cobra ou Cobra Rainha, conhecida também como Naja, que vive na Ásia e na África. A peçonha das serpentes uma saliva viscosa injetada num homem de 80 quilos pode, em alguns casos, matá-lo em três horas. Mas o mesmo veneno pode salvar vidas, combater doenças como a hipertensão. Por isso, veneno é caro: um grama chega a custar US$ 300, cerca de R$ 810,00. Ou até mais, dependendo da espécie.
A 50 quilômetros de Campinas, no interior de São Paulo, está instalado o Centro de Extração de Toxinas Animais (Ceta), que trabalha diariamente com criação e retirada de veneno de serpentes. É uma infra-estrutura moderna, em 750 metros de área construída, onde se cuida da alimentação delas, desde cascavéis e jararacas até urutus e jaracuçus, reproduzidas em cativeiro. O plantel tem 1.200 serpentes peçonhentas (venenosas), todas chipadas, ou seja, com ponto eletrônico que permite acompanhamento de quantidade de alimentação dada e de seus desenvolvimentos.
Tem até salas de quarentena para receber novas serpentes, que são pesadas, medidas, medicadas, em ambientes de temperatura controlada. As cascavéis, por exemplo, ficam em baias e caixas aquecidas, mantidas a 30 graus e com umidade relativa do ar abaixo de 50%.
O nível do Ceta é único no Brasil é um dos mais desenvolvidos do mundo. Fica numa zona rural, a dez quilômetros do centro da pequena Estância Climática de Morungaba, que está a 42 quilômetros de Campinas. Seu diretor, Getúlio Lopes Castro, engenheiro de telecomunicações aposentado, entrou no negócio em março de 1999, estimulado pela filha, Alessandra, bióloga que lá trabalha também, ao lado do extrator e responsável pelo manejo dos animais, Jairo Marques do Vale.
Veneno de serpente vale ouro? Nem tanto, como procura desmistificar Lopes Castro. ''Falam, falam... há quem diga que um grama custa até US$ 300, mas até hoje estamos investindo na viabilidade do negócio. Por enquanto, não tivemos lucro e estamos trabalhando para exportar veneno, mas certamente sofremos concorrência de clandestinos''.
Segundo ele, não existe mercado no Brasil. ''Os preços pagos que conhecemos são irrisórios. Tivemos um processo longo de formação do plantel, com espécies recebidas dos Bombeiros, Polícia Ambiental e do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), que nos licenciou. Não compramos serpentes, nem incentivamos a captura. Passamos dois anos somente investindo no desenvolvimento e reprodução delas e na implantação de infra-estrutura para ter uma produção constante de veneno.'' Criar serpente é difícil, conta o diretor do Ceta. ''Não basta fazer um buraco e jogá-las nele. O animal é nossa matéria-prima, tem de ser tratado com cuidado para que viva sem doenças''.

mockup