Se a questão é proximidade, o público local não tem do que reclamar. Nos shows da nova geração de humoristas, não faltam piadas sobre Curitiba. A simples menção à sacola de determinado supermercado ou a um restaurante de Santa Felicidade faz as pessoas rirem.
Comediantes como Fábio Silvestre e o já veterano Diogo Portugal vão mais fundo e contróem personagens extremamente curitibanos. "Pode parecer que não, mas tem muita gente engraçada nesta cidade", ironiza Silvestre, criador de tipos facilmente reconhecíveis no cotidiano.
Essa distinção entre intérprete de personagem e stand-up comedian é motivo de uma certa polêmica no meio. Há quem se saia bem nas duas funções (como Portugal) e aqueles totalmente voltados para o formato mais puro. Marco Zeni é um deles.
"Sou mesmo um xiita com as regras do stand-up", admite o ator, "dono" de uma noite de humor semanal no bar Santa Marta, a Santa Comédia. De acordo com ele, o sucesso da fórmula tem atraído oportunistas que simplesmente ignoram o conjunto de técnicas que envolve o gênero. "Não vou dizer o nome, mas teve um cara do CQC que passou por aqui e não conseguiu fazer a coisa direito", conta.
Zeni está falando do já citado Rafael Cortez, um ator de formação que, aproveitando a fama do programa, resolveu se arriscar na "comédia em pé". Sobre a tentiva, Portugal não faz rodeios. "Só três do elenco do CQC sabem fazer stand-up: Danilo Gentili, Oscar Filho e Rafinha Bastos".
Desbravador do humor em Curitiba, Portugal criou um circuito praticamente sozinho. Mesmo Silvestre e Zeni vieram um pouco depois. Com a experiência de quem já se apresentou para apenas dez pessoas e hoje leva mais de 100 à sua noite fixa no John Bull, ele comenta a inflação desse mercado. "Esses dias eu cheguei em casa e minha empregada estava testando um texto de stand-up", brinca.
Apesar da invasão dos caroneiros, Portugal acredita que a nova febre do humor também é boa para os pioneiros. "Ajuda a diminuir a discriminação que eu sofri no meio artístico, por não ter vindo do teatro", diz.
O fato é que a atividade dá dinheiro. "Já ganhei mais em um mês no bar do que em dez anos no teatro", afirma Zeni. "Uni o útil ao agradável. O prazer de estar no palco com o prazer de ganhar dinheiro", arremata.
O cachê para uma única performance pode variar de R$ 2 a R$ 20 mil, caso dos integrantes do CQC. Mas o bar é apenas uma vitrine para os comediantes, que faturam mesmo com os shows fechados - aniversários, festas de família, eventos corporativos. Nos últimos meses do ano, 80% da agenda dos artistas é tomada pelas apresentações em empresas.
Talvez por isso, não há muita rivalidade entre as noites de humor. Pelo contrário. Silvestre e Zeni, por exemplo, dividem custos para trazer atrações de fora, que acabam se apresentando nas duas casas.
"Acho que essa amizade é uma atitude anticuritibana, levando-se em conta a média da nossa classe artística. No meio da música não existe cooperação, e até hoje nenhuma banda daqui aconteceu nacionalmente", compara Silvestre, acostumado a se apresentar no Rio e em São Paulo. (O.G.)

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