Sentimento de paraíso perdido
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quarta-feira, 19 de novembro de 2008
Equipe da Folha 
Quando chegou ao Brasil, vindo do Paraguai ainda criança, Miguel Angel Alvarenga Báez recebeu do pai um dicionário e a missão de decorar 20 palavras por dia. Obediente, aos 10 anos, tornou-se o relações públicas da família. Mas a identificação com a língua portuguesa demorou mais para acontecer. "Para mim, expressar sentimentos em português é muito difícil", conta Báez, que em 1988, aos 28 anos, renunciou a nacionalidade paraguaia ao naturalizar-se brasileiro.
A decisão radical, explica Báez, deveu-se às circunstâncias na quais sua família foi obrigada a exilar-se no Brasil. Nos anos 70, o pai atuava como empresário no Paraguai e começou a receber ameaças por recusar-se a pagar propina aos militares durante a ditadura. "Quem queria trabalhar de modo decente não podia mais", afirma Báez. "Quando meu pai sofreu um atentado, viu que era sério, catou a família inteira e viemos numa Kombi para o Brasil, depois de uns dias escondidos em Assunção", lembra.
Báez recorda que por muitos anos teve o mesmo pesadelo: estava voltando para o Paraguai por uma estrada em que não se via o horizonte. "Eu não escolhi ser desenraizado, deixar o meu lugar. Mas já que vim pra cá, foi aqui que sofri, chorei, estudei, é aqui que vou ficar", justifica o brasileiro naturalizado. "A sensação é a de paraíso perdido. Tenho três vidas: até os 10 anos no Paraguai, em Umuarama onde tomei contato com uma cultura meio caipira e em Curitiba, mais cosmopolita, onde cursei a faculdade. O duro é ir juntando isso tudo e fazer a síntese", explica. (D.R.)


