O professor gaúcho Flávio Roberto Hermany, 43 anos, casado e pai de dois filhos, deve ao tato grande parte do seu desenvolvimento social e intelectual. Portador de catarata congênita, enxergou parcialmente durante a infância e adolescência, mas perdeu a visão por completo após um descolamento de retina. Ainda assim, concluiu os estudos, cursou a faculdade de Letras e fez pós-graduação em educação especial.
''Aos seis anos, quando ainda enxergava parcialmente, meus pais me matricularam em um instituto em Porto Alegre, o Santa Luzia, onde passava a semana inteira. Como eu era muito pequeno, não compreendia bem, sofria muito, porque só voltava pra casa nos fins de semana. Mas, foi o melhor que meus pais fizeram. Eles eram muito pobres e, lá, fui alfabetizado em braile. Foi isso que garantiu minha inclusão na sociedade. O tato, junto com a audição, é o sentido mais importante para quem é cego'', enfatiza Hermany.
Atualmente, o professor coordena o projeto Atividades da Vida Diária, no Instituto Paranaense de Cegos (IPC), localizado na Avenida Visconde de Guarapuava, 4.186, no Batel, e mantido por doações de voluntários. Voltada ao apoio das pessoas com deficiência visual, a entidade mantém a escola de educação especial Osny Macedo Saldanha, onde estudam crianças e adolescentes que cursam o ensino fundamental.
O objetivo do projeto que está sendo implantado por Flávio Hermany é fazer com que os jovens deficientes visuais aprendam a cuidar de si mesmos, desde a higiene até vestir-se adequadamente, usar os talheres e comportar-se em diferentes ambientes. A busca, é claro, é pela independência.
''Muita gente acha que o deficiente visual é um incapaz. Os pais, principalmente, tendem a superproteger as crianças, o que não é bom. Quando um cego entra em contato com outras pessoas que têm a mesma vivência, ele percebe que pode fazer muita coisa'', argumenta Hermany, com a experiência de quem já jogou futebol por bastante tempo e convive com amigos que atuam na Seleção Brasileira Para-olímpica de Futebol.
De acordo com ele, a meta é, após a conclusão do curso, levar os alunos para conhecer parques, pontos turísticos, museus e restaurantes da cidade, entre outros locais. O tato, obviamente, será o meio pelo qual os jovens ampliarão as fronteiras do conhecimento dentro da cidade onde vivem.
Tatear pela Capital com a bengala, contudo, representa um grande desafio para os deficientes visuais que vivem em Curitiba. Até mesmo pessoas desenvoltas como o professor Hermany sofrem diariamente para evitar esbarrões que provoquem consequências mais graves do que uma simples contusão.
''Conheço muita gente que já sofreu cortes na testa, nariz e boca ao bater em telefones públicos, caixas de correio e em carrinhos de metal dos catadores de papel. Tudo isso fica na altura do rosto, dependendo da altura da pessoa. Eu mesmo já me machuquei algumas vezes'', destaca Flávio Hermany. ''A acessibilidade ainda é um problema em Curitiba. As calçadas, muitas vezes esburacadas, representam um grande obstáculo e não só para nós, para todo cidadão'', acrescenta.
Para buscar soluções que possam facilitar o dia-a-dia dos deficientes visuais, foi criada no IPC uma comissão de professores que faz levantamentos constantes sobre os principais obstáculos encontrados nas ruas. O grupo pretende apresentar à prefeitura da Capital um documento contendo sugestões de iniciativas que podem vir a ser adotadas.

mockup