Sensibilidade e determinação Jackeline Seglin ‘‘... No Brasil, desde Dorotéa Engrácia as mulheres escrevem livros. Dorotéa foi, talvez, a primeira brasileira a escrever um romance, publicado em Portugal no meio do século XVIII. Era algo tão insólito que atribuíram a autoria do livro a Alexandre de Gusmão – e Dorotéa terminou seus dias numa cadeia, destruída por ter desafiado o poder das leis e dos costumes femininos...’’ (trecho do artigo da romancista Ana Miranda, publicado em 1993, no especial Veja 25 Anos). Como em todas as demais áreas, a mulher também batalhou seu espaço no mundo das artes. De musas inspiradoras, apresentaram a essência do universo feminino em suas próprias palavras, cores e formas. Lançaram um brilho especial na frente e atrás das câmaras, nos palcos e bastidores; deram voz à sua visão de mundo. Neste fim de século, a mulher conquistou e marcou o universo artístico. E continua botando para fora seu desabafo, sua rebeldia, sua paixão... A artista brasileira mostra sua arte. Até mesmo estando longe de seu mundo. Dentro de casa, na sala de aula, na fábrica, na lavoura. A pequena arte, a arte reclusa a quatro paredes. Os caminhos escolhidos – ou simplesmente ‘‘impostos’’ – aos artistas, de um modo geral, dependem de uma série de fatores decisivos que vão de diferenças regionais de culturas e possibilidades, à tão difundida falta de incentivo – não somente oficial, mas até mesmo no círculo restrito de convívio. A mulher brasileira – a artista – soube trabalhar as suas várias facetas e vem aprendendo a amar, a ser mãe, ao mesmo tempo em que explana sua sensibilidade através de uma obra. Apesar de nem sempre existir a capacidade de abraçar tudo para poder buscar um mínimo de satisfação, o cenário atual tem mostrado que o rumo parece estar traçado. O mesmo artigo da romancista Ana Miranda traz o relato sobre uma jovem, de aspecto frágil e olhos serenos, que a procurou por desejar ser escritora de romances. A questão era se a autora a estimularia a seguir na profissão, sendo ela casada e mãe de um filho pequeno. ‘‘O que aconteceria com Elisa se aqui tivesse nascido há cerca de 300 anos e dotada da sua mesma aspiração intelectual? A não ser que fosse mandada para um convento, onde não havia a caprichosa luz da presença masculina e as mulheres não tinham, portanto, liberdade para o florescimento do espírito, ela naufragaria em seu próprio sonho’’, constatou a romancista. A autora, entretanto, refletiu: o que mudou para nós, mulheres? O que podemos esperar do futuro? O que podia responder? Quais os limites em sua condição de mulher e mãe e o quanto isso dificultaria a realização profissional? ‘‘Mas por que a realização pessoal (profissional) da mulher deveria significar a usurpação da legitimidade de suas funções naturais de sedução, de sua força mágica de amar?’’. Na conclusão, Ana Miranda escreve: ‘‘Nos dias de hoje, quando a família tomou as mais variadas formas, numa época em que milhões de mulheres vivem sozinhas, obrigadas a arcar com a educação dos filhos e o sustento das casas, a jovem Elisa terá de enfrentar a divisão entre o lar e o trabalho profissional. Se fracassar nessa arte, não sobreviverá como um ser humano pleno’’. As conquistas da mulher nas artes estão estampadas nas histórias de símbolos e mitos brasileiros que se tornam uma representação de todas as outras artistas, anônimas ou não. Independente de eleger nomes ou citar feitos marcantes. A artista brasileira é História. As artistas brasileiras são muitas histórias. Como a da carioca que, ainda adolescente, foi para a Espanha estudar dança e acabou numa das mais conceituadas companhias de revista do país. A dançarina, entretanto, tinha outro sonho: tornar-se uma estrela de cinema. Em 1927, Horácia Corrêa D’Ávila transformou-se em Lia Torá, a primeira brasileira a filmar em Hollywood, a escrever o roteiro de um filme e a fundar uma companhia de cinema nos Estados Unidos – tudo em apenas cinco anos –, além de ser a primeira mulher a participar de corridas de automóveis no Brasil. A conquista não foi fácil. Ela deixou a Espanha para voltar para o seu país, onde conheceu e se casou com um empresário, com quem teve dois filhos. O sonho era o mesmo, mas a situação desta mulher havia mudado. Depois de ganhar um concurso de fotogenia realizado pela Fox Film, a brasileira foi chamada para atuar em Hollywood. O marido a proibiu de entrar para o cinema. Nada adiantou. Ela embarcou na aventura e ele a acompanhou. A carreira foi curta. Era o fim do cinema mudo e Hollywood não deixa muitas brechas para estrangeiros com sotaques. Em 1931, Lia Torá desistiu da carreira, voltando para o Brasil e se dedicando a uma outra paixão: as corridas automobilísticas. Sonhos e mais sonhos que trilham o caminho da arte. Como a estrela do cinema mudo, uma outra brasileira que queria ser bailarina, encontrou no teatro a sua forma mais profunda de realização. O percurso foi longo, mas inusitado. Ainda criança, lutou pela sobrevivência enfrentando a pobreza. Aos nove anos, dançava para ‘espantar’ a fome. Depois da separação dos pais, foi morar com a mãe e duas irmãs no interior de São Paulo. Ela era discriminada pelas ‘rodas de família’, mas ganhou a atenção dos intelectuais e boêmios. Até que a moça ganhou um concurso de beleza e foi parar nas capas de revistas – sempre com o sonho de ser bailarina. Aos 20 anos, a jovem Cacilda Becker foi indicada para o teatro como substituta de uma atriz em uma montagem amadora. Fenômeno do teatro brasileiro, Cacilda Becker renovou os palcos nacionais nos anos 50. Tornou-se líder da classe teatral e chegou a proclamar a desobediência civil ao declarar: ‘‘Eu não sou mais só eu, sou um pouco mistura com o teatro’’. Uma história particular que se misturou à história do teatro. Cacilda morreu aos 48 anos, depois de sofrer um derrame cerebral no intervalo de uma apresentação da peça ‘‘Esperando Godot’’. Estes são apenas flashes que espelham o universo de milhares de mulheres-artistas, com histórias de vida inconfundíveis e, ao mesmo tempo, fundidas umas nas outras. Na música, no cinema, no teatro, nas artes plásticas, na dança, na literatura... Na vida.