Mário CésarDramaO artista plástico: vinho com assaltantes e cerveja com amigosO artista plástico e professor Bira Senatore fazia os últimos preparativos para a exposição ‘‘A Razão da Ação do Eu é a Tua Ação’’, em parceria com Yara Strobbel. A abertura da mostra estava marcada para a noite de 10 de dezembro de 1987. Local: a galeria de arte do Banestado, que ficava no mezanino da agência.
A exposição de Senatore e Yara era o ápice de um trabalho que começou nos ônibus da Cidade, testando a reação do público de Londrina frente a manifestações de arte. Naquele ano de 1987, mais de 200 gravuras da dupla de artistas foram colocadas dentro dos ônibus da Grande Londrina. Os usuários reagiam de diferentes maneiras à presença dos objetos de arte em seu cotidiano, e muitas dessas cenas foram registradas em fotos. Para a exposição na galeria de arte do Banestado, montou-se um grande painel - de 14 metros por dois - com reprodução das gravuras e das fotos do público.
Mas o grand finale do trabalho artístico teria um contratempo inesperado: o assalto encontrou a exposição. Quando Senatore preparava uma das obras, que seriam expostas logo mais à noite, ouviu tiros e gritos. Em seguida, vozes de comando. Ele andou até a sacada do mezanino, onde era possível observar o andar térreo da agência. Quando espiou para ver o que estava acontecendo, flagrou um dos assaltantes, mascarado. E entrou na mira de um revólver. A ordem dos ladrões era: deitar e ficar quieto.
Por cerca de cinco horas, Senatore ficou naquela posição incômoda, íntimo do chão de paviflex amarelo. ‘‘Eu me lembro daquele chão até hoje.’’ Dois funcionários do banco estavam ali também, na condição de reféns do mezzanino.
A certa hora, começaram as negociações para escolher os reféns que iriam na fuga com os bandidos. Bira Senatore temia entrar na lista. ‘‘Os assaltantes poderiam ver o meu nome nos cartazes da exposição, que estavam espalhados pelo banco. Eles rocuravam personalidades para levar no ônibus.’’
Bira Senatore se lembrou então das caixas de vinho branco que estavam logo ali do lado. O vinho seria servido na abertura da exposição. ‘‘Aí pensei: se é para ir no ônibus, vou alegre.’’ Abriu uma garrafa e passou a beber em copos de plástico, deitado mesmo. Bebeu quase dois litros de vinho, enquanto o drama do assalto - pelo menos dentro do banco - se encerrava. No lado de fora da agência, ouviam-se palmas, gritos e vaias. Era a multidão reagindo aos novos capítulos do assalto.
Senatore saiu, a contragosto, carregado por um policial militar. ‘‘Não sei porque ele fez aquilo. Eu não estava bêbado, só alegre.’’ Livre (do assalto e do PM), Bira Senatore encontrou na avenida Paraná vários amigos em meio à multidão, entre eles a artista plástica Yara Strobbel, que por questão de minutos não foi refém - chegou depois dos assaltantes. O grupo de amigos foi para o Bar Brasil tomar uma cerveja, esfriar a cabeça e - é claro - comentar a história com detalhes.

mockup